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quinta-feira, outubro 15, 2026

Especialistas alertam em Brasília para “desidratação planejada” do Cerrado

No Dia Mundial da Água, neste domingo (22), pesquisadores e movimentos sociais se reuniram em uma roda de conversa no Eixão do Lazer, em Brasília, para chamar a atenção sobre o avanço da degradação do Cerrado. O encontro integrou a campanha Cerrado Coração das Águas e apresentou o diagnóstico de que o bioma enfrenta um processo de destruição que compromete a segurança hídrica do país, e não apenas uma seca temporária.

A professora do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB), Mercedes Bustamante, afirmou que a velocidade da devastação é equivalente a um crime contra o conhecimento acumulado ao longo de milhões de anos. Ela comparou as queimadas no Cerrado à perda irreparável sofrida com o incêndio da Biblioteca de Alexandria, ressaltando o valor histórico e científico da vegetação.

Bustamante alertou que o país está renunciando à riqueza formada pela evolução das espécies ao adotar um modelo de ocupação que desconsidera a biodiversidade. Segundo ela, essa destruição decorre de uma lógica histórica que tratou a vegetação como algo sem relevância.

Embora a Amazônia concentre grande parte da atenção sobre recursos hídricos, o Cerrado é responsável por sustentar o abastecimento de água no Brasil. O bioma alimenta oito das 12 regiões hidrográficas do país e responde por 93% da água da bacia do Rio São Francisco.

Yuri Salmona, fundador do Instituto Cerrados, disse que a vazão do Rio São Francisco já caiu pela metade em razão do desmatamento ocorrido no Cerrado. Ele alertou que é possível causar o colapso do Pantanal apenas com o desmatamento nas cabeceiras localizadas no Cerrado. Salmona também informou que as áreas de recarga de água do bioma já tiveram 74% de sua vegetação removida.

Agronegócio: progresso ou contradição?

Especialistas presentes apontaram o modelo de produção em larga escala de commodities como um dos principais responsáveis pelo desgaste dos recursos hídricos e energéticos. Para Salmona, esse sistema é contraditório porque compromete a própria base que sustenta o agronegócio.

Ele destacou que o agronegócio ocupa a maior parcela das terras com foco em exportação, enquanto a agricultura familiar, ocupando menos de 30% da área, é a responsável por garantir a alimentação da população brasileira.

Serrinha do Paranoá

Como exemplo da lógica predatória, os especialistas citaram a tentativa de monetizar a Serrinha do Paranoá para suprir déficits do Banco de Brasília (BRB). A região, estratégica para a recarga do Lago Paranoá, abriga 119 nascentes que correm risco com a urbanização proposta.

Salmona classificou a urbanização da Serrinha como um erro técnico grave, comparando a ação à perfuração de uma caixa d’água doméstica, que comprometeria o fornecimento mesmo que as tubulações pareçam intactas. Bustamante reforçou que a ocupação dessas áreas compromete o sistema hídrico da capital ao afetar zonas de recarga que abastecem regiões mais baixas.

Especialistas também afirmaram que o tempo para reverter o processo é curto: a recuperação de áreas degradadas no Cerrado pode levar décadas, o que exige medidas imediatas de proteção. Bustamante ressaltou a necessidade de ir além da repressão à ilegalidade e defender a proteção integral do bioma, já que o Código Florestal ainda permite a supressão de até 80% da vegetação em propriedades privadas.

Movimentos sociais presentes reforçaram que a preservação do Cerrado é uma pauta que envolve garantia de água, produção de alimentos e qualidade de vida, e não apenas uma questão ambiental.

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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