20.6 C
Uberlândia
domingo, novembro 8, 2026

Estoques elevados, tecnologia e avanços do agro diminuem risco de choque alimentar por “super El Niño”

O sistema alimentar mundial está mais preparado hoje para enfrentar os efeitos de um episódio intenso de El Niño do que em eventos passados, graças a estoques elevados, avanços tecnológicos e ao crescimento de novos grandes exportadores agrícolas, como Brasil e Rússia. Essa combinação aumenta a capacidade de compensar perdas em regiões afetadas pelo clima.

Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e análises de especialistas ouvidos pela Reuters mostram que a produção agrícola global cresce em média acima do consumo e do aumento da população desde a década de 1980. O ganho de produtividade foi impulsionado por variedades de plantas mais produtivas, maior uso de fertilizantes, melhorias na irrigação e técnicas mais eficientes de proteção das lavouras, elevando rendimentos de arroz, trigo, milho e soja.

“Mesmo durante condições de seca, melhor manejo da irrigação e ciência das culturas significam que ainda podemos produzir rendimentos comercializáveis”, afirmou Andrew Whitelaw, da consultoria agrícola australiana Episode 3. Ele observou, porém, que riscos à oferta e aos preços permanecem.

Efeitos do El Niño e áreas já afetadas

O fenômeno climático, já classificado como forte, já começa a atrapalhar plantios em partes da Ásia — incluindo Índia e países do Sudeste Asiático — e na Austrália. A falta de umidade ocorre simultaneamente à escassez de fertilizantes e diesel atribuída à guerra no Irã, elevando os riscos para a produção global. A Índia enfrenta monções abaixo do esperado; na Austrália há preocupação com clima mais seco nas principais regiões produtoras de trigo; Indonésia e Tailândia também registram impactos.

O meteorologista Chris Hyde, da empresa americana SkyFi, afirmou que o El Niño deve ganhar intensidade no quarto trimestre e no início de 2027. O fenômeno resulta do aquecimento anormal da superfície do Pacífico central e oriental, normalmente provocando seca em grande parte da Ásia e chuvas mais intensas em regiões das Américas. Episódios severos entre 1997–98 e 2015–16 reduziram a produção de culturas importantes e contribuíram para escassez de alimentos e aumento da inflação.

Estoques e oferta diversificada

Desta vez, estoques elevados de grãos e óleos vegetais atuam como um colchão. A Índia detém reservas de arroz equivalentes a mais de um ano das exportações globais do cereal; a China concentra quase metade dos estoques mundiais de trigo; e os estoques globais de óleo de palma estão próximos de níveis recordes.

Outra mudança é a maior participação de novos fornecedores: o Brasil se tornou o maior fornecedor mundial de soja, com exportações que cresceram mais de 13 vezes desde o El Niño de 1997–98. A Rússia elevou suas exportações de trigo para 48 milhões de toneladas no ano passado, ante cerca de 1 milhão de toneladas em 1997–98. Esses aumentos permitem compensações regionais em caso de quebras de safra.

Tecnologia e preparação

Agricultura moderna dispõe de híbridos de milho tolerantes à seca, amplamente adotados na África e nas Américas desde 2015; variedades de trigo mais resistentes ao calor e à falta de água na Índia e na Austrália; e arroz de ciclo mais curto no Sul e Sudeste Asiático. Satélites, previsões sazonais, mapas de umidade do solo e sistemas de aplicação orientados por GPS ajudam a identificar áreas vulneráveis e direcionar água e insumos. Produtores também usam plataformas baseadas em inteligência artificial que combinam previsões do tempo, informações do solo e dados das lavouras para recomendar plantio, irrigação, fertilizantes e controle de pragas.

“Os governos têm informações muito melhores do que no passado e conseguem se preparar mais cedo”, disse Maximo Torero, economista-chefe da FAO, à Reuters.

Riscos que permanecem

Especialistas alertam que o sistema continua vulnerável a choques simultâneos. Guerras no Oriente Médio e na região do Mar Negro podem comprometer ganhos alcançados por estoques e tecnologia. A crise no Estreito de Ormuz também afetou fornecimento de combustíveis e fertilizantes: antes do bloqueio relacionado à guerra no Irã, a passagem concentrava cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo bruto e gás natural liquefeito. Para Torero, os efeitos finais do El Niño dependerão da evolução das condições climáticas no segundo semestre de 2026 e dos impactos dos conflitos sobre disponibilidade e preços de insumos agrícolas.

Assim, apesar de maiores estoques, avanços tecnológicos e oferta mais diversificada, a combinação de clima extremo, conflitos e custos elevados de produção pode ainda pressionar a oferta e os preços dos alimentos.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
Últimas Notícias
Veja também