Resumo: Investigações e análises de empresas especializadas apontam que uma rede de petroleiros conhecidos como “frota fantasma” mantém grande parte das exportações marítimas da Rússia, escapando de sanções e servindo também a operações de espionagem e sabotagem, segundo relatos.
A Rússia continua a exportar petróleo por via marítima por meio de embarcações que operam fora dos circuitos tradicionais de seguro e registro. Autoridades e analistas consultados relatam que esses navios — muitos em péssimo estado — transportam milhões de barris para compradores dispostos a pagar menos, ao mesmo tempo em que facilitam ações híbridas contra países da Otan.
Quem e o que: De acordo com a S&P Global, cerca de 80% das exportações marítimas de petróleo russo são hoje movimentadas por embarcações ligadas à chamada frota fantasma. A Windward estima que o contingente envolva aproximadamente 1,3 mil navios, e que o número de embarcações usando bandeiras falsas subiu pelo menos 65% entre janeiro e agosto de 2025.
Contexto e números: A Rússia é apontada entre os três maiores exportadores globais de petróleo — ao lado dos Estados Unidos e da Arábia Saudita — e teria extraído cerca de 10% do petróleo mundial em 2024, segundo a Administração de Informações de Energia dos EUA. Antes de 2022, as exportações marítimas russas transitavam majoritariamente por petroleiros ocidentais, com transações financeiras na Suíça e seguro contratado em Londres. Hoje, analistas afirmam que até quatro em cada cinco navios que carregam petróleo russo não contam com apólices reconhecidas pelos principais clubes mútuos de seguro marítimo.
Como e para onde: Parte dos navios envolvidos realiza transferências em alto-mar para ocultar origens, desliga ou manipula seus sistemas automáticos de identificação (AIS), altera bandeiras e nomes com frequência, e, em alguns casos, utiliza números da Organização Marítima Internacional correspondentes a embarcações destinadas ao desmantelamento. Segundo a S&P, um em cada cinco petroleiros no oceano faria parte desse esquema. Da frota, 50% transportariam exclusivamente petróleo russo, 20% iraniano, 10% venezuelano, e os 20% restantes operariam com cargas de diferentes países sancionados.
Os principais destinos das cargas são Índia e China, com compras menores apontadas na Turquia, Singapura e Emirados Árabes Unidos.
Riscos e consequências: Analistas apontam que muitos desses navios são antigos, mal mantidos e sem seguro adequado, elevando o risco de vazamentos e acidentes. Em dezembro de 2024, duas embarcações com cerca de 50 anos sofreram danos em tempestade no estreito de Kerch, vazando até 5 mil toneladas de óleo, episódio qualificado por um cientista russo como a pior catástrofe ambiental do país no século 21. Especialistas também alertam para o risco de colisões devido a transponders desligados.
Incidentes e resposta internacional: Em outubro de 2025, o navio Boracay — com múltiplos nomes e bandeiras ao longo de sua história — foi retido perto da costa francesa ao transportar 750 mil barris do terminal de Primorsk, Rússia, para Vadinar, na Índia. Investigações sobre esse tipo de operação motivaram a missão Sentinela do Báltico, lançada por países da Otan. Autoridades informaram sobre incursões de drones em espaço aéreo de aliados, e o fechamento temporário do aeroporto de Bruxelas em 6 de novembro de 2025 foi atribuído à presença de drones em áreas próximas.
Medidas e limitações: Reino Unido, Dinamarca, Suécia e Polônia passaram a checar documentos de seguro em áreas como o Canal da Mancha e estreitos dinamarqueses. Estônia, Finlândia, Alemanha, Islândia, Letônia, Lituânia, Holanda e Noruega concordaram com ações para interceptar e deter navios fantasmas no mar Báltico. Contudo, a interceptação em águas internacionais segue limitada pelo princípio da liberdade de navegação e pela definição de “passagem inocente”.
Aspecto financeiro: O negócio é lucrativo: um petroleiro apto a cruzar o canal de Suez e com cerca de 15 anos custa ao redor de US$ 40 milhões, enquanto uma viagem de um mês do mar Negro até a Índia pode render mais de US$ 5 milhões segundo estimativas da S&P. Donos de embarcações aproveitam margens altas e repassam riscos ambientais e financeiros à coletividade, especialmente quando não há cobertura seguradora.
Futuro: Observadores do setor já apontam para a formação de uma possível “Frota Fantasma 2.0”, com atores e modalidades semelhantes se espalhando para outros segmentos do transporte marítimo, incluindo casos apontados em rotas entre áreas ocupadas da Ucrânia e portos como Istambul.
Com informações de G1




