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sexta-feira, outubro 16, 2026

Irã transforma controle do Estreito de Ormuz em arma de guerrilha econômica

Transmissão: Band

O Irã vem usando o controle do Estreito de Ormuz como instrumento de pressão econômica e militar, capaz de afetar o fluxo global de petróleo e derivados. Até 28 de fevereiro de 2026, o país produzia cerca de 4,5 milhões de barris por dia de petróleo cru e condensados — equivalente a 4% da oferta mundial. Após ataques norte-americanos e israelenses, a república islâmica teria passado a controlar 20% do petróleo mundial, segundo relatos.

O domínio iraniano se apoia na posição geográfica: o Estreito de Ormuz, corredor de 150 a 170 quilômetros entre os golfos Pérsico e de Omã, concentra o escoamento de cerca de um quinto da oferta global de óleo. Situado na margem norte do estreito, o Irã pode, com facilidade, atingir embarcações que transitam pelo canal — ao sul está Omã, país que historicamente mantém relações mais amistosas com Teerã.

Meios e impacto

As forças iranianas não dependem de grandes arsenais para tornar a passagem arriscada. A simples ameaça de instalar minas marítimas ou de atacar com mísseis e drones tem sido suficiente para que companhias de navegação e seguradoras evitassem a região. Desde o início da Guerra do Irã, apenas algumas dezenas de petroleiros receberam autorização para atravessar o estreito — tráfego que, em tempos de paz, corresponde a apenas um dia normal de passagem.

Especialistas classificam a estratégia como guerra assimétrica — técnica adotada por atores com recursos limitados frente a potências maiores. Eduardo Svartman, professor do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (Abed), afirma: “Apesar de ser uma potência média, o Irã não consegue travar uma guerra em pé de igualdade com os Estados Unidos e, por isso, desenvolveu a capacidade de lutar de forma assimétrica”.

Entre os instrumentos utilizados estão o apoio a forças irregulares, como o Hezbollah no Líbano e os houthis no Iêmen. Segundo Svartman, o objetivo iraniano no atual conflito é dificultar ou restringir a circulação por Ormuz para “impor custos que serão dirigidos aos Estados Unidos e a seus aliados”. Ele também ressalta que o estreito não é relevante apenas para o petróleo: fertilizantes, polímeros e outros derivados transitam pela via.

Avaliações e respostas

Juliano Cortinhas, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), considera previsível a resposta assimétrica do Irã diante dos ataques dos Estados Unidos e de Israel. “Cada país usa o que tem. O Irã teve a sua soberania atacada, estava pronto para esse cenário e tinha uma capacidade de impor perdas aos Estados Unidos e seus aliados maior do que esses imaginavam”, disse Cortinhas. Ele acrescenta que erros de avaliação da inteligência e do processo decisório norte-americano facilitaram a surpresa.

Svartman aponta que planos militares para Ormuz podem existir há décadas, mas lembra que a execução de ações militares é também decisão política: “Deve haver uma salinha no Pentágono cheia de planos para Ormuz”. O pesquisador observa ainda que a crença de que ataques aéreos poderiam provocar mudança de regime em Teerã não se confirmou até o momento.

Para Maria Eduarda Dourado, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba, a guerra assimétrica confere ambiguidade às ações iranianas, tornando mais difícil o reconhecimento internacional dessas medidas como atos formais de guerra. Ela defende que responder a ameaças desse tipo exige abandonar modelos militares convencionais em favor de estratégias de resiliência e dissuasão multidimensional, além de sustentar narrativas e coalizões internacionais.

O embaixador aposentado Sérgio Tutikian, que já serviu no Irã, no Iraque e no Kuwait, lembra que o regime iraniano vem ameaçando fechar o Estreito de Ormuz desde a Guerra Irã-Iraque (1980–1988). Tutikian alertou sobre riscos logísticos em caso de operações terrestres prolongadas na região, citando o calor extremo do verão — com temperaturas que podem chegar a 50°C e umidade relativa elevada — e mencionou a ilha iraniana de Kharg, importante para distribuição de petróleo e possivelmente visada em cenários de conflito.

As características físicas do estreito também favorecem a estratégia de bloqueio: profundidade máxima de cem metros e canais de navegação de cerca de três quilômetros em cada direção permitem que ações de menor escala, incluindo ataques com drones, tenham efeito significativo sobre o tráfego marítimo.

Enquanto as tensões persistem, a capacidade do Irã de restringir o trânsito em Ormuz segue sendo peça central nas dinâmicas econômicas e militares que envolvem Estados Unidos, aliados e países dependentes do combustível que passa pela via.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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