Desde 26 de maio de 2026, passou a vigorar a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que incorpora explicitamente os riscos psicossociais ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e amplia a responsabilidade das empresas sobre fatores do trabalho que podem provocar adoecimento mental, como metas abusivas, jornadas exaustivas, assédio moral, sobrecarga e falhas na organização do trabalho.
Diagnóstico sobre a preparação das empresas
Pesquisas apontam adaptação ainda lenta das organizações. O levantamento Mapa do RH & DP 2026, da Sólides, indica que 57,8% das companhias não têm um Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) com análise de riscos psicossociais implementada; 42,2% afirmam ter o PGR elaborado e em funcionamento. Entre as empresas que não estão plenamente adequadas, 27,3% possuem PGR que não contempla a atualização da NR-1, 22% estão em fase de elaboração do programa e 8,5% dizem não ter PGR formalizado.
Outro estudo, do Pandapé, mostra que apenas 27,3% das empresas declararam estar totalmente adaptadas à NR-1, enquanto 49,8% se dizem parcialmente preparadas e 17% ainda não iniciaram a adequação. Já o Anuário de Benefícios e Práticas Corporativas 2026, produzido pela Swile com a Leme Consultoria e a Poli Júnior da USP, aponta que 58,9% das empresas dizem estar “totalmente preparadas” para cuidar da saúde mental, mas revela lacunas na prática: só 11,7% monitoram horas extras, 23,9% acompanham o clima organizacional de forma estruturada e 44,9% analisam indicadores de rotatividade.
Especialistas apontam problemas estruturais e culturais
Auditores e juristas consultados indicam que a dificuldade vai além de aspectos técnicos, envolvendo falta de estrutura, resistência cultural e baixa priorização do tema. A auditora-fiscal do trabalho Odete Reis relata que as fiscalizações mostram que muitas empresas ainda não incorporaram a saúde mental nas políticas de gestão e, com frequência, deixam de contratar profissionais qualificados para avaliar a organização do trabalho.
A juíza do trabalho Mirella Cahú afirma haver “grande despreparo técnico”, já que pensar em saúde mental relacionada ao trabalho é uma discussão recente para parte dos profissionais. Ela ressalta também que há quem ainda enxergue o adoecimento mental como questão individual, em vez de reconhecer o papel da organização do trabalho. A procuradora do trabalho Gisela Nabuco acrescenta que o problema central é falta de comprometimento na implementação de medidas, lembrando que a obrigação estruturada de gerenciar riscos ocupacionais, incluindo os psicossociais, existe desde janeiro de 2022.
Críticas ao mercado de soluções prontas
Especialistas alertam para o crescimento de ofertas padronizadas no mercado — checklists e pacotes que prometem conformidade com a NR-1, muitas vezes sem base científica e sem promover mudanças na organização do trabalho. A avaliação é de que esses produtos atendem exigências burocráticas sem atacar as causas do sofrimento laboral. Também foi destacado que a atualização da norma não obriga a contratação de psicólogos ou a oferta exclusiva de programas de bem‑estar: tais iniciativas podem complementar ações, mas não substituem a necessidade de alterar práticas de trabalho que adoecem pessoas.
Prazos, fiscalização e orientações do governo
A atualização da NR-1 foi anunciada pelo Ministério do Trabalho e Emprego em agosto de 2024 e estava prevista inicialmente para maio de 2025; após pedidos de adiamento, houve prorrogação de um ano e a norma entrou em vigor em 26 de maio de 2026. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, informou que não pretende conceder novo adiamento sem acordo entre empresas e representantes dos trabalhadores.
O Ministério do Trabalho publicou um Manual de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, um Guia sobre Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho e um documento de perguntas e respostas para orientar empresas e trabalhadores. Segundo o ministério, nos 90 dias seguintes à entrada em vigor a Inspeção do Trabalho dará prioridade a ações de orientação, instrução e notificação, com caráter pedagógico e preventivo, ainda que medidas administrativas possam ser adotadas quando cabíveis. O órgão esclareceu que não foi publicada norma que suspenda formalmente a aplicação de multas nesse período; a medida prevista é, na prática, o critério da dupla visita para atuação inicial orientativa.
Especialistas consideram urgente a adoção de medidas. A Organização Internacional do Trabalho estima que mais de 840 mil pessoas morrem anualmente no mundo por problemas de saúde relacionados a riscos psicossociais no trabalho. Dados do Ministério da Previdência Social, revelados pelo G1, mostram que o Brasil registrou o maior número de afastamentos por transtornos mentais em 10 anos em 2024, e que em 2025 houve novo recorde, com mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais.
Com informações de G1




