Um conglomerado ligado às Forças Armadas de Cuba administra bilhões de dólares em atividades que captam divisas, enquanto o país enfrenta escassez e apagões prolongados. A holding conhecida como Gaesa (Grupo de Administración Empresarial S. A.) opera em sigilo, sem site, e-mails institucionais ou demonstrações públicas de resultados, e suas contas não podem ser auditadas pela Assembleia Nacional nem pela Controladoria Geral da República de Cuba.
Quem e o que controla
Segundo especialistas e documentos vazados ao jornal americano Miami Herald, a Gaesa concentra boa parte das fontes de receita mais lucrativas do regime: turismo, remessas, comércio exterior e missões médicas no exterior. A holding pertence formalmente às Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR), mas também estaria fora do controle público da própria instituição militar.
Em março de 2024, balanços internos obtidos pelo Miami Herald indicaram que o grupo detinha ativos avaliados em pelo menos US$ 17,894 bilhões, incluindo cerca de US$ 14,467 bilhões em contas bancárias. Esses números não contabilizariam a Cimex, a maior empresa da Gaesa, o que sugere que o patrimônio real poderia ser ainda maior. A BBC não verificou esses dados de forma independente.
Origem e expansão
A Gaesa foi criada na década de 1990 para gerir empresas que operavam em divisas durante o chamado Período Especial, após o colapso da União Soviética. Inicialmente voltada a financiar as próprias Forças Armadas por meio do turismo e do comércio exterior, a estrutura evoluiu nas últimas décadas para um conglomerado que incorporou empresas como Cimex, Gaviota, Habaguanex, Etecsa e o Banco Financeiro Internacional (BFI), além da gestão do porto de Mariel.
O processo de expansão acelerou com a ascensão de Raúl Castro ao poder, e foi impulsionado pelo general Luis Alberto Rodríguez López-Calleja (1960-2022), ex-genro de Raúl, até sua morte em 2022. Desde então, a presidência-executiva da Gaesa passou para a generala-de-brigada Ania Guillermina Lastres, cujo papel, segundo especialistas, seria mais operacional do que proprietário.
Estrutura e sigilo
Reportagens e estudiosos descrevem uma estrutura societária opaca, com cadeias de empresas e subordinadas que ocultariam os verdadeiros beneficiários. Analistas como Emilio Morales estimam que o núcleo de poder não ultrapassa 15 pessoas e que há forte supervisão militar sobre a contabilidade das empresas do grupo. A imprensa cubana raramente cita a Gaesa e os seus balanços são mantidos em segredo.
Receitas, reservas e impacto econômico
Os documentos vazados revelaram margem de lucro elevada: em agosto de 2024 a Gaesa teria registrado cerca de US$ 2,1 bilhões de lucro sobre US$ 5,563 bilhões de receita, uma margem próxima de 38%. Especialistas apontam que a concentração em negócios em dólares, a ausência de concorrência e a dualidade cambial – receita em dólares e salários em pesos cubanos – ajudam a explicar esses resultados.
Parte dos recursos estaria concentrada no BFI e em bancos internacionais, além de possivelmente em jurisdições com baixa transparência, configurando reservas paralelas que fogem ao controle do Banco Central. Para alguns economistas, as transações do conglomerado podem equivaler a cerca de 40% do PIB cubano.
Contraste com a crise nacional
Esses volumes contrastam com o quadro econômico de Cuba: queda acumulada de 15% do PIB nos últimos cinco anos, insolvência diante de credores e deterioração das condições de vida. Em 2025, o Observatório Cubano dos Direitos Humanos estimou que quase nove em cada dez cubanos viviam em situação de extrema pobreza ou “de sobrevivência”. A crise se agravou com apagões de várias horas diárias e falta de alimentos, combustíveis e medicamentos, enquanto a Gaesa ampliou investimentos sobretudo no setor turístico, com novos hotéis em Havana.
Analistas citados pela reportagem apontam que a priorização de atividades destinadas a captar divisas teria desviado recursos que poderiam ser aplicados em agricultura, geração de eletricidade e outros setores produtivos.
Em meio a sanções americanas intensificadas recentemente e ao sigilo sobre os ativos, há incerteza sobre o destino desses recursos em caso de transição política, segundo observadores ouvidos pelas reportagens sobre o tema.
Com informações de G1




