Uma série de pedidos de recuperação judicial e extrajudicial por grandes empresas brasileiras marcou 2026, com nomes como Habib’s, Casas Bahia, Marabraz, Braskem, Raízen, Oncoclínicas, Grupo Toki (Tok&Stok e Mobly), Grupo CVLB (Casa & Vídeo e Le Biscuit) e St. Marché entre os afetados. Consultoria RGF indica que o número de companhias em recuperação judicial cresceu 66% nos últimos três anos, alcançando 6.341 casos no segundo trimestre de 2026.
Do total de processos registrados pela RGF no segundo trimestre de 2026, 21% são do setor de varejo, 19,6% da indústria de transformação e 17,5% do agronegócio, os ramos mais impactados. As medidas de recuperação podem ser judiciais — como no caso da Lojas Americanas, iniciada em 2023 — ou extrajudiciais, quando a empresa negocia com um grupo de credores e depois homologa o acordo em juízo. A falência ocorre quando a Justiça conclui que a empresa não tem condição de pagar suas dívidas e deve encerrar operações; a Oi foi declarada em falência em 25 de agosto de 2026.
Razões apontadas por autoridades e especialistas
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheceu a pressão sobre o varejo provocada pela elevação das taxas de juros — hoje em 14% ao ano — mas afirmou que não há uma crise generalizada e citou indicadores de dinamismo em vários setores. Entre analistas, entretanto, a onda de recuperações tem origem em três fatores principais: a taxa básica de juros elevada e prolongada, que amplia o passivo das empresas e reduz o crédito ao consumidor; falhas de gestão, incluindo cortes excessivos na média gerência e estratégias de expansão equivocadas; e mudanças nas relações de trabalho, com menos profissionais buscando carreiras em empresas e escassez de mão de obra qualificada.
Fabian Salum, professor titular e pesquisador da FDC, descreve o fenômeno como de “composição híbrida”, citando dificuldades de acesso a capital, restrição de linhas de financiamento pelos bancos e aumento da alavancagem após a pandemia — período em que a Selic subiu de 2% para 15%.
Especialistas também ressaltam o impacto do alto endividamento das famílias: 39% da população está inadimplente, o que reduz o consumo e obriga empresas a cortar investimentos, inclusive em formação de pessoal. Isabella Vasconcellos, da ESPM, lembra que decisões adotadas entre 2020 e 2021 — como investimentos rápidos em tecnologia e e-commerce ou cortes bruscos de pessoal — deixaram sequelas, e que entre 2020 e 2025 o Brasil eliminou 322 mil vagas de gerência e diretoria, com um saldo negativo de 112 mil contratações para esses cargos segundo o Caged.
Para consultores, cortes mal planejados comprometem a capacidade de recuperação. André Pimentel, da Performa Partners, afirma que medidas como reduzir excessivamente o quadro gerencial ou expandir a rede de lojas além do suporte do caixa podem ser fatais. No caso da Casas Bahia, por exemplo, havia mais de 1.000 lojas; após o pedido de recuperação judicial foram fechadas 298 unidades e demitidos 1.900 empregados, mas a Justiça determinou a reintegração provisória dessas equipes.
A tecnologia e o avanço do comércio eletrônico também são fatores ambíguos: embora tenham sido necessários investimentos, a pressa e o custo elevado desses projetos, combinados com juros altos, tornaram algumas apostas insustentáveis. Betania Tanure, da BTA Associados, alerta que cortes de 10% a 20% da força de trabalho sobrecarregam quem fica e reduzem qualidade.
Do ponto de vista financeiro, a previsão de juros em dois dígitos pelo menos até o final de 2028, segundo Vasconcellos, mantém a estrutura de capital comprometida. Felipe Tanus, diretor de crédito da Allianz Trade Brasil, acrescenta que taxas acima de dois dígitos elevam o risco de insolvência e que fraudes ou expansão mal calculada—como em alguns casos recentes — reforçam a necessidade de governança rigorosa.
O aumento de pedidos de recuperação também tem efeitos sistêmicos: fornecedores de varejistas em recuperação, por exemplo, podem receber entre 90% e 95% do que lhes é devido até 30 dias após o deferimento do pedido pela Justiça, segundo práticas citadas pela Allianz Trade; ao mesmo tempo, a oferta de crédito se estreita e encarece para o mercado como um todo. Armando Castelar, do FGV IBRE, observa que a conjuntura afeta famílias e empresas e pode pressionar o Banco Central por redução na taxa de juros.
A situação descrita pelos especialistas indica que a combinação de fatores macroeconômicos, decisões internas das empresas e transformações no mercado de trabalho vem explicando a onda de recuperações judiciais e extrajudiciais observada em 2026.
Com informações de G1




