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sexta-feira, outubro 23, 2026

Pesquisadores indígenas do Pará aproximam saberes tradicionais e ciência nas universidades

Pesquisadores indígenas no Pará têm levado conhecimentos tradicionais para a produção acadêmica, conectando estudos universitários às práticas e à vida nos territórios. O movimento ganha relevância num momento em que o futuro da Amazônia é tema de governos e conferências internacionais e coincide com o Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril.

O aumento da presença indígena no ensino superior brasileiro é expressivo: a participação subiu mais de 300% na última década. Entre 2012 e 2022, mais de 53 mil estudantes indígenas ingressaram em universidades públicas na Amazônia Legal. Apesar do avanço no acesso, a permanência segue como obstáculo: levantamento com base em dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) indica que, na Amazônia, menos de 10% dos ingressantes indígenas nesse período concluíram o curso.

Entre a universidade e a floresta

Emiliano Kaba, do povo Munduruku, formou-se em biologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e atua no resgate e manejo de fauna urbana, lidando com serpentes, preguiças e iguanas frequentemente afetadas por desmatamento e expansão urbana. O pesquisador mantém vínculo com a Terra Indígena Munduruku, no sudoeste do Pará, onde observa práticas de uso sustentável dos recursos naturais. Para Emiliano, o trabalho acadêmico deve integrar o conhecimento universitário aos saberes tradicionais, e o contato direto com o meio natural é essencial para compreender o funcionamento dos ecossistemas.

Manoela Karipuna, pesquisadora do povo Karipuna e doutora em antropologia pela UFPA, estuda como os saberes produzidos por mulheres indígenas sustentam a vida nas aldeias. Sua pesquisa analisa o uso de plantas medicinais, o cultivo da roça, a participação em rituais e a atuação política dentro das comunidades, com foco na transmissão oral entre gerações. Manoela destaca que a produção de conhecimento pelos próprios indígenas tem alterado a forma como suas histórias são registradas e contadas.

Vera Arapium foi a primeira estudante indígena a ingressar no mestrado do programa em que se formou, em curso realizado em Fortaleza, e iniciou a formação acadêmica na UFPA. Em suas pesquisas, investigou o preconceito linguístico e a perda de línguas no Baixo Tapajós; no mestrado aprofundou estudos sobre o Nheengatu, idioma que voltou a ser ensinado em escolas indígenas. Atualmente coordena ações no Pará voltadas ao fortalecimento de línguas indígenas, incluindo formação de professores, produção de material didático e incentivo ao uso cotidiano das línguas. Na região de Santarém, professores e monitores indígenas têm papel central na manutenção do número de falantes.

Desafios de permanência

Pesquisadores entrevistados apontam obstáculos que vão além do acesso. Conteúdos teóricos e a leitura de textos acadêmicos em português ou inglês representam dificuldades para muitos estudantes indígenas. A distância entre aldeias e centros universitários também pesa: Emiliano cita que Belém fica a cerca de 1.800 quilômetros de sua terra, condição que intensifica a saudade e dificulta a permanência. Além disso, há disputas sobre o direito de indígenas ocuparem espaços acadêmicos, segundo relatos de quem vivencia a trajetória.

Mesmo com essas barreiras, a presença indígena nas universidades e na produção científica tem crescido, trazendo para o centro do debate saberes originários que orientam práticas de uso sustentável dos recursos e a manutenção cultural nas comunidades.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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