Entregadores de aplicativo enfrentam lacunas nas estatísticas oficiais sobre acidentes de trabalho, devido à ausência de registros que indiquem se a vítima estava em jornada no momento do sinistro e à falta de transparência das plataformas.
O entregador Silvio Luiz Pinheiro sofreu um acidente na Avenida Sumaré, na Zona Oeste de São Paulo, quando o freio dianteiro da bicicleta elétrica travou de repente. Ele precisou desviar de pedestres na ciclovia e, ao passar por uma área com areia, perdeu o equilíbrio e caiu. Ao devolver a bicicleta alugada na central em Pinheiros, Silvio relata que os funcionários limitaram-se a confirmar a entrega do equipamento, sem prestar acompanhamento além do procedimento de devolução.
Resultado do acidente: lesões na clavícula e no cotovelo, dor no ombro e recuperação mais lenta do que esperava. Silvio chegou a deixar temporariamente as entregas por aplicativo e voltar a um emprego com carteira assinada em um restaurante por conta do convênio. Hoje, diz estar “99,9%” recuperado e voltou ao trabalho nas plataformas, atraído pelos benefícios que considera ter para a saúde — ele é pré-diabético e percebe melhora ao pedalar.
O trabalho por aplicativos cresceu no Brasil: em 2024 havia 1,7 milhão de pessoas nessa forma de ocupação, equivalente a 1,9% dos ocupados no setor privado, segundo o IBGE. Entre 2022 e 2024 houve aumento de 25,4%, com 335 mil novos trabalhadores. Destes, 58,3% (964 mil) atuam no transporte de passageiros e 29,3% (485 mil) são entregadores. A renda média dos trabalhadores plataformizados era de R$ 2.996, com jornadas superiores a 40 horas semanais; em 2025, o rendimento médio da população brasileira chegou a R$ 3.367.
Medir os riscos enfrentados por entregadores ainda é um desafio porque os sistemas oficiais não registram se a pessoa estava em serviço no momento do acidente. Dados do Detran de São Paulo mostram aumento nas mortes envolvendo ciclistas: 320 casos em 2021 e 409 em 2025, alta de 27,8% — números que não identificam especificamente entregadores, já que as bases não discriminam se a vítima estava trabalhando.
O Ministério Público do Trabalho (MPT), por meio do procurador Rodrigo Castilho, afirma que essa lacuna motivou um projeto para combater a subnotificação de acidentes entre trabalhadores plataformizados. Os formulários do sistema de saúde (Sinan) não registravam se a vítima trabalhava para aplicativos nem se estava em jornada. Após o projeto, o Ministério da Saúde publicou, em abril de 2025, nota técnica orientando profissionais a registrar essa informação, mas, um ano depois, não há estatísticas consolidadas que comprovem a aplicação dessa orientação.
Além das falhas nos registros de saúde, o MPT aponta a resistência das plataformas em fornecer dados sobre acidentes e sobre o quadro de trabalhadores — número de ativos, jornadas e acidentes ocorridos durante o trabalho. Em março de 2024, o governo federal apresentou proposta de regulamentação para motoristas de aplicativo, mas excluiu os entregadores, cuja regulamentação segue sem acordo.
Em resposta às críticas, as plataformas afirmaram priorizar a segurança dos entregadores. O iFood disse que não incentiva comportamentos de risco, que calcula tempos considerando trânsito e distância, e que oferece seguro e auxílio financeiro durante afastamentos. A 99Food afirmou que usa tecnologia para definir prazos, orienta respeito à legislação de trânsito e fornece seguro contra acidentes pessoais durante o período conectado. A Keeta afirmou priorizar segurança, calcular prazos sem estimular velocidade excessiva e manter políticas de prevenção e cobertura securitária. O procurador Rodrigo Castilho afirma, porém, que falta comprovação pública sobre quantos trabalhadores foram efetivamente beneficiados por essas medidas.
Enquanto isso, milhares de entregadores como Silvio permanecem nas ruas, sob um modelo de trabalho em expansão, com proteção social e estatísticas que ainda não permitem dimensionar plenamente os riscos da atividade.
Com informações de G1




