Contexto e desafios
O presidente eleito em outubro para o mandato 2027-2030 encontrará um quadro econômico misto: desemprego no menor patamar da série histórica e balança comercial com resultados positivos, mas um ritmo de atividade em redução em função de juros elevados. Economistas ouvidos destacam que a taxa básica de juros, atualmente em 13,75% ao ano — após ter atingido 15% ao ano — é o principal fator que freia a expansão econômica, eleva a inadimplência e aumenta o endividamento das famílias.
Fiscal e juros
Para viabilizar cortes na taxa de juros, analistas defendem restabelecer superávits primários e adotar um caminho sustentável de ajuste das contas públicas. Segundo especialistas, o país não registra saldos primários positivos de forma consistente desde 2014, e é necessário que os superávits sejam crescentes para reduzir a trajetória da dívida e aliviar a pressão sobre os juros reais.
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), afirma que será preciso um programa de recuperação fiscal de médio prazo, com medidas aprovadas pelo Congresso e vigentes desde o início do novo governo. Entre os pontos a discutir, ele cita vinculações orçamentárias, indexações, subsídios tributários e financeiros, supersalários, emendas parlamentares e a previdência dos militares. Salto também ressaltou a importância de reduzir os spreads bancários, que elevam o custo final do crédito além da taxa Selic.
Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, avalia que o atual arcabouço fiscal ainda não dissipou as incertezas sobre a trajetória das contas públicas. Para ele, a ausência de uma regra fiscal crível mantém um prêmio de risco elevado, o que contribui para juros altos. Uma sinalização fiscal clara permitiria, na avaliação do pesquisador, reduzir juros de forma sustentável, aliviar o endividamento das famílias e criar condições para ganhos de produtividade.
Política econômica e política
A economista Zeina Latif, sócia-diretora da Gibraltar Consulting e professora do Insper, aponta que além das medidas econômicas é necessário construir um ambiente político que facilite a implementação da agenda. Ela defende uma “pacificação” que permita formar uma base aliada no Congresso e, assim, transmitir confiança aos agentes econômicos. Latif também sugere reformas, muitas delas constitucionais, para reduzir gastos obrigatórios e sinalizar compromisso com as contas públicas.
Emprego, produtividade e consumo
Com a desaceleração projetada para 2027, Ataliba prevê perda de dinamismo no mercado de trabalho. Ele e outros especialistas destacam que aumentos sustentáveis de renda dependem de ganhos de produtividade, e não apenas do endividamento das famílias. Zeina Latif alerta contra estímulos ao consumo que não estejam lastreados em reformas ou em melhoria da produtividade, pois esses mecanismos podem agravar o endividamento e gerar estresse financeiro doméstico.
Comércio exterior e abertura
No campo da política comercial, os analistas consideram que ampliar exportações e aprofundar abertura pode incentivar investimento, elevar produtividade e sustentar crescimento no longo prazo. Fatores externos, como tensões decorrentes da guerra no Oriente Médio e medidas protecionistas adotadas por outros países, influenciam as trocas comerciais brasileiras. Felipe Salto defende recuperar a participação da indústria, aproveitando oportunidades nas agendas ambiental, energética e tecnológica.
Zeina Latif propõe uma revisão das regras do Mercosul para permitir maior flexibilidade na negociação de acordos comerciais e defende a redução de tarifas de importação e a eliminação de barreiras não tarifárias. Ela menciona a necessidade de eliminar distorções como bitributação e um conjunto de normas que hoje geram burocracia e incertezas, prejudicando a integração do Brasil ao comércio internacional.
Os principais candidatos à Presidência já reconhecem nos planos de governo que a alta taxa de juros é um entrave ao crescimento sustentável, mas, segundo os especialistas, ainda há lacunas sobre como será implementado o reequilíbrio das contas públicas.
O cenário recebido pelo próximo mandatário exigirá, na avaliação dos entrevistados, combinação de medidas fiscais, reformas estruturais, ações para elevar produtividade e iniciativas para ampliar e diversificar as exportações, como caminho para reduzir juros e retomar o crescimento.
Com informações de G1




