Os candidatos à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) colocaram propostas econômicas no centro do debate às vésperas do segundo turno, em 25 de outubro. Especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que as medidas de ambos esbarram nas restrições do Orçamento e na trajetória crescente da dívida pública, que atualmente se aproxima de R$ 11,1 trilhões, equivalente a 82,9% do PIB.
O crescimento das despesas obrigatórias — previdência, saúde e educação — consome a maior parte das verbas e reduz o espaço para investimentos discricionários. Do total de R$ 2,8 trilhões previstos em despesas primárias no Orçamento de 2027, cerca de 90% já estariam comprometidos com aposentadorias, salários e benefícios sociais, segundo levantamento citado pelo g1.
Propostas e críticas
Flávio Bolsonaro defende a compra, pela Caixa Econômica Federal, de carteiras de dívidas de pessoas físicas e empresas junto aos bancos, com renegociação a juros menores, prazos maiores e período de carência — seis meses para pessoas físicas e um ano para empresas. A campanha também propõe programas como o “Ganha-Ganha” e o “ViraPIX”, que prevê devolver parte de pagamentos via PIX, e a reativação do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), encerrado em 2025.
Economistas alertam para os riscos dessas propostas. Murilo Viana, mestre em economia pela Unicamp, diz que usar a Caixa para operações do tipo pode transferir dívida privada para o setor público. Daniel Duque, da FGV Ibre, acrescenta que expectativas de novas renegociações podem afetar a oferta de crédito e o comportamento de consumidores e bancos.
O PL também afirma que pretende cortar gastos equivalentes a 1,5% do PIB, revisar o arcabouço fiscal e reduzir a estrutura do governo — plano batizado pela campanha de “tesouraço” — sem detalhar, porém, quais itens seriam sacrificados ou o cronograma de execução.
O presidente e candidato à reeleição, Lula, sancionou lei que perdoa dívidas de microempreendedores individuais (MEIs) com a União, abrangendo impostos, contribuições previdenciárias, multas e encargos, numa ação que beneficiaria cerca de 3,6 milhões de empreendedores e remeteria R$ 12,6 bilhões em dívidas, segundo o governo. O Executivo também incluiu os MEIs no Desenrola 3.0, programa que prevê compra de carteiras de crédito por parte do governo, com desconto mínimo de 90% exigido aos bancos; o montante estimado dessa operação foi apontado em torno de R$ 6 bilhões.
Impactos sobre políticas e arrecadação
Além do perdão e da compra de dívidas, Lula propõe ampliar programas sociais como o Bolsa Família, manter a política de valorização do salário mínimo, oferecer transporte público gratuito aos fins de semana e manter subsídios aos combustíveis. Essas medidas podem elevar gastos permanentes ou reduzir arrecadação, dependendo de como forem estruturadas.
Do outro lado, Flávio promete revisar pontos da reforma tributária, reduzir impostos e extinguir mecanismos como o “split payment”, considerado por especialistas capaz de aumentar a arrecadação; o tributarista Lucas Ribeiro estimou que o “split payment” poderia gerar R$ 400 bilhões a R$ 500 bilhões por ano. O governo Lula, porém, argumentou que programas como o Perse representavam alto custo — o ministro Fernando Haddad estimou perda potencial de R$ 20 bilhões em 2025 se mantido.
Dados sobre endividamento das famílias mostram que 81,7% tinham algum tipo de dívida em setembro, segundo a PEIC da CNC, recorde em 2026, e mantêm a pressão sobre propostas de renegociação e programas que mexam no comportamento de crédito.
Com informações de G1




