TRANSMISSÃO: Record
O uso obrigatório de biometria facial para acesso a estádios com capacidade superior a 20 mil pessoas tem ampliado o público e reforçado medidas de segurança nas arenas brasileiras desde sua implementação, há quase um ano. A exigência está prevista no artigo 148 da Lei Geral do Esporte, sancionada em 14 de junho de 2023, que concedeu prazo de dois anos para a adoção do sistema.
A tecnologia permite que o torcedor entre sem apresentar ingresso físico: a catraca é liberada pelo reconhecimento do rosto cadastrado no momento da compra. Empresas como a Bepass desenvolvem e implantam o sistema no país. Segundo a fornecedora que equipou o Allianz Parque, primeiro estádio do mundo a usar a solução em todos os acessos em 2023, a velocidade de entrada do público passou a ser cerca de três vezes maior, e o Palmeiras registrou aumento de pelo menos 30% no número de sócios-torcedores.
Dados comparativos apontam crescimento entre 2023 e 2025 na presença de públicos específicos: mulheres subiram 32% e crianças 26%. No Brasileirão Masculino do ano passado, a média geral de público por partida foi de 25.531 torcedores; considerando apenas as 269 partidas realizadas após a obrigatoriedade da biometria facial, a média subiu para 26.513, um incremento de aproximadamente 4%.
Clubes com estádios menores também adotaram a tecnologia voluntariamente. A Vila Belmiro, do Santos, com capacidade em torno de 15 mil pessoas, iniciou em 2024 o uso da biometria e projeta economia de R$ 100 mil por mês — cerca de R$ 1,2 milhão por ano — ao eliminar a confecção de carteirinhas. O presidente do clube destacou que o cadastro ampliou o número de torcedores e trouxe mais conforto e segurança ao frequentar a arena.
Um dos pontos de integração do sistema é o cruzamento de dados com o Banco Nacional de Mandados de Prisão: se houver pendências judiciais, a polícia é acionada. Em partida entre Santos e Corinthians, na Vila Belmiro, em 15 de março, três pessoas foram detidas após o controle de acesso identificar mandados; um dos detidos respondia por roubo e os demais por falta de pagamento de pensão alimentícia. Em âmbito estadual, a parceria entre clubes e a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, no programa “Muralha Paulista”, resultou na identificação e prisão de mais de 280 foragidos ao tentarem entrar em estádios.
Em 2023 também foi firmado, entre a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e os ministérios do Esporte e da Justiça e Segurança Pública, o projeto “Estádio Seguro”, que contribuiu para a expansão do uso da tecnologia.
Críticas sobre privacidade e riscos associados à biometria surgem em relatórios como “Esporte, Dados e Direitos”, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC). O documento questiona a coleta obrigatória de dados vinculada à compra do ingresso, aponta vulnerabilidade de crianças e adolescentes e alerta para vieses raciais em algoritmos. O relatório cita um caso de 2024 na Arena Batistão, em Aracaju, em que um torcedor negro foi identificado equivocadamente como foragido, além de referência a estudo de 2018 que mostrou taxas de erro superiores na identificação de mulheres negras.
Representantes das empresas que fornecem a tecnologia afirmam que os dados biométricos são tratados em formato vetorizado, não transitando como fotos, e negam alta probabilidade de falsos positivos, indicando uma taxa estimada de um em um milhão, ao mesmo tempo em que reconhecem que o sistema ainda pode falhar por não reconhecer um rosto.
Operadores e fornecedores estimam que a biometria facial tende a ser ampliada para outros eventos, como shows, por ganhos em segurança, fluidez de acesso e redução de cambismo.
Com informações de Agência Brasil




