Transmissão: Record
O dia 1º de abril marcou os 62 anos do golpe civil-militar de 1964 e reacendeu o debate sobre políticas públicas de memória que visam evitar a repetição de regimes autoritários. Em São Paulo, a mobilização da sociedade civil também se concentra na preservação e na transformação de antigos centros de repressão em espaços de memória.
O Memorial da Resistência de São Paulo, criado em 2009 por pressão do Fórum Permanente de ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado, funciona no antigo prédio do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), ocupado entre 1940 e 1983. O local, que foi palco de prisões, torturas e mortes, completa 15 anos de existência como espaço dedicado à recuperação da memória e à defesa dos direitos humanos.
Segundo a diretora do Memorial, Ana Pato, a instituição integra o conjunto de medidas conhecidas como justiça de transição, destinadas a apurar violações cometidas durante a ditadura (1964-1985), reconhecer as vítimas e promover mudanças institucionais. As ações do Memorial incluem investigação de fatos com base em trabalhos da Comissão Nacional da Verdade (CNV), campanhas por indenizações e propostas de reformas em órgãos públicos.
A preservação do antigo complexo carcerário mantém quatro celas, um corredor central e um pátio de banho de sol. O prédio passou por restauração e abriga exposição permanente com painéis e materiais audiovisuais sobre o cotidiano da prisão e o período pós-ditadura, além de atividades educativas com participação de ex-presos políticos.
Atualmente o Memorial exibe a mostra Uma Vertigem Visionária – Brasil: Nunca Mais, curada por Diego Matos, que rememora os 40 anos do livro lançado em 1985, resultado da maior investigação da sociedade civil sobre tortura no país. Ana Pato relata que, na época da abertura política, advogados chegaram a xerocar processos por até 24 horas no Superior Tribunal Militar para preservar documentos.
Complexo do Doi-Codi e reivindicação por preservação
Enquanto o Deops já funciona como memorial, o antigo prédio do Doi-Codi permanece sem estrutura de visitação. O jornalista Ivan Seixas, preso e torturado no local aos 16 anos, compara o destacamento a um centro de concentração e diz que seu pai, Joaquim Alencar de Seixas, foi morto ali. Ivan foi libertado após seis anos de prisão.
Seixas afirma que foi preso por integrar o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), organização de resistência armada formada majoritariamente por operários e militantes, que realizou ações como sabotagem e expropriações para financiar a luta. Ele relata que, apesar do tombamento do prédio ter ocorrido em 2014, a administração do complexo segue sob responsabilidade da Secretaria de Segurança Pública e não foi transferida à Secretaria de Cultura, o que impede a conversão do espaço em memorial.
O processo de transformação do antigo Doi-Codi está paralisado há pelo menos 10 anos, segundo relatos de ex-presos e ativistas, embora o local tenha sido palco de crimes contra figuras como o jornalista Vladimir Herzog.
Mapeamento nacional e resposta do governo
Em abril de 2025, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania concluiu o levantamento Lugar de Memória da Ditadura Militar, identificando 49 locais ligados ao regime de 1964-1985. Do total, 17 pontos estão em São Paulo, 12 no Rio de Janeiro e os demais em oito estados e no Distrito Federal. O estudo utilizou documentos de comissões da verdade e depoimentos de ex-presos políticos, e o governo federal planeja ampliar o mapeamento em etapas futuras.
A reportagem procurou o governo do estado de São Paulo para questionar sobre cronograma ou planejamento para transferir a administração do complexo do antigo Doi-Codi à Secretaria da Cultura e Economia Criativa e sobre os entraves técnicos ou orçamentários para implantar visitação e exposição pedagógica no local. Até o momento, não houve resposta do órgão.
O assunto segue em debate entre familiares de vítimas, ex-presos políticos e ativistas que cobram a criação de locais de memória para preservar registros e evitar a repetição de violações.
Com informações de Uberlandianofoco




