Uma sequência de vídeos que mostra pais interrompendo choros infantis ao gritar frases como “Olha a Jéssica!”, “Jéssica!!!” ou “A Jéssica chegou!” viralizou nas redes sociais como solução rápida para birras. A reação imediata de muitos filhos — que deixam de chorar e passam a procurar quem foi citado — alimenta o debate entre profissionais sobre eficácia, limites e implicações para o desenvolvimento emocional.
O que acontece no cérebro da criança
Especialistas dizem que o efeito não se deve a um suposto poder do nome, mas ao redirecionamento da atenção. Em momentos de crise, a criança vive intensa sobrecarga sensorial e emocional, e a menção inesperada de algo externo atua como novo estímulo, desviando o foco do desconforto.
Bianca Dalmaso, psicóloga do Espaço Einstein, afirma que o cérebro da criança migra temporariamente do choro para a novidade, interrompendo a reação motora naquele instante, embora isso não signifique que a emoção tenha sido processada ou resolvida.
Luciene Tognetta, professora da Unesp e autora de livros infantis, lembra a perspectiva de Jean Piaget (1896-1980): crianças pequenas aprendem por meio de experiências práticas e sensoriais. Por isso, estratégias que alterem o contexto imediato podem ser úteis para recuperar a calma, desde que usadas de forma adequada.
Quando a técnica não funciona
Segundo Bruno Jardini Mäder, coordenador do curso de Psicologia das Faculdades do Pequeno Príncipe, o redirecionamento tende a falhar quando o choro decorre de necessidades básicas não atendidas, como sono ou fome. Nesses casos, a intensidade da necessidade supera a capacidade do estímulo externo de interromper a crise, exigindo acolhimento e outras formas de regulação.
Limites e cuidados
Profissionais alertam que transformar a “Jéssica” em figura punitiva — por exemplo, usando ameaças do tipo “se não obedecer, a Jéssica vai te pegar” — induz medo e pode levar a comportamentos motivados pelo temor, e não pela compreensão das regras. O uso repetido do recurso também pode privar a criança da experiência de nomear emoções e aprender a tolerar a frustração.
Para orientar a atuação dos pais, especialistas citam estratégias apropriadas por faixa etária: até 2 anos, priorizar contato físico, colo e voz calma para regular o sistema nervoso; entre 2 e 5 anos, validar sentimentos ao mesmo tempo em que se estabelecem limites; a partir de 6 anos, dialogar sobre soluções e ensinar técnicas de autorregulação, como exercícios de respiração.
Ética da exposição
Outro ponto levantado é a publicação dos vídeos. Mäder ressalta que registrar e divulgar momentos de vulnerabilidade infantil para entretenimento pode expor a criança a comentários e constrangimentos futuros, e que o cuidado com a privacidade deve ser redobrado.
Especialistas concluem que chamar a atenção com uma cena inventada pode ser uma ferramenta pontual para interromper uma crise, mas não deve substituir práticas que ajudem a criança a compreender e regular suas emoções.
Com informações de G1




