Chocolate segue com preços elevados nas prateleiras mesmo com queda do cacau no campo
O consumidor brasileiro enfrentará mais uma Páscoa com chocolates caros, apesar da queda recente nas cotações do cacau paga ao produtor. Na prévia da inflação de fevereiro, o IBGE registrou que chocolate em barra e bombom acumulam alta de 26% em 12 meses.
Segundo o analista da StoneX, Lucca Bezzon, a razão para a defasagem entre o preço no campo e o valor ao consumidor é o uso de compras antecipadas pela indústria. As fabricantes adquirem manteiga e pó de cacau das moageiras com antecedência de seis a 12 meses. Para a produção destinada a esta Páscoa, a indústria chegou a pagar entre US$ 6.000 e US$ 10.000 por tonelada pelos subprodutos do cacau; hoje esses preços estariam próximos a US$ 3.000 por tonelada.
O sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, Carlos Cogo, afirma que, com margens comprimidas nos anos de déficit global, as empresas do setor têm priorizado a recomposição de lucros em vez de repassar reduções de custo imediatamente ao consumidor. Ambos os analistas preveem que a queda nos preços ao varejo deve ocorrer de forma gradual, possivelmente a partir do segundo semestre, se as cotações internacionais e domésticas permanecerem baixas.
A forte alta dos preços nas prateleiras em 2024 decorreu da queda de safra no Brasil e em grandes produtores africanos, como Costa do Marfim e Gana, afetados por El Niño, que trouxe secas e chuvas em momentos inadequados, além de pragas e doenças. Em janeiro de 2025, a cotação média mensal do cacau na Bolsa de Nova York chegou a US$ 10.000 por tonelada; um ano antes, estava em torno de US$ 4.000 por tonelada.
Apesar da recente retração nos preços rurais, houve reclamações dos produtores. Na Bahia, agricultores têm recebido, em média, R$ 200 pela arroba do cacau, valor cerca de 70% inferior ao de um ano atrás, segundo reportagem do Globo Rural. Em 18 de fevereiro, produtores bloquearam a BR-101 em Ibirapitanga, no sul da Bahia, em protesto contra a importação e contra a baixa nos preços.

Em resposta a preocupações sanitárias e à pressão do setor, o Ministério da Agricultura suspendeu temporariamente a importação de cacau da Costa do Marfim, alegando risco de introdução de pragas e doenças, e apontou possibilidade de mistura de grãos provenientes da Libéria e da Guiné em lotes marfinenses. O ministro Carlos Fávaro disse, em entrevista à GloboNews na sexta-feira (27), que é necessário ter certeza sobre a origem dos lotes para proteger a produção brasileira.
Bezzon observa que a queda nos preços no Brasil também se deve à redução da demanda industrial, com indústrias diminuindo compras e adaptando fórmulas — encolhimento de barras e substituição parcial da manteiga de cacau por outros óleos — o que levou moageiras a reduzir aquisições de amêndoas. Em 2025, a produção brasileira de cacau foi de 186.137 toneladas, e as importações somaram 42.199 toneladas, das quais 81% vieram da Costa do Marfim.
Se necessário, segundo Carlos Cogo, o Brasil pode recorrer ao Equador, que reporta grande safra, para suprir eventuais necessidades de abastecimento.




