O governo federal lançou nesta quarta-feira (29) um plano nacional com investimento de R$ 1,335 bilhão para mitigar os efeitos do El Niño, medida anunciada após um tornado que atingiu cidades do Rio Grande do Sul na terça-feira (28) e reacendeu o debate sobre o fenômeno. O pacote prevê ações em segurança alimentar, saúde, monitoramento hidrológico, fiscalização ambiental e combate a incêndios florestais.
Tornado no Sul e relação com o El Niño
Na tarde de terça (28), um tornado atingiu os municípios de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho, no noroeste do Rio Grande do Sul, causando destelhamentos, danos estruturais e deixando ao menos quatro pessoas feridas. O climatologista Denis Garcia avaliou que o evento teve influência indireta do El Niño, que tende a intensificar o transporte de ar quente e úmido e, assim, favorecer a formação de tempo severo.
O geógrafo William Borges ressaltou que o El Niño altera a circulação atmosférica em escala ampliada e, dessa forma, pode criar condições mais propícias para tornados, mas a ocorrência depende de fatores meteorológicos locais no momento do evento.
Detalhes do plano federal
Segundo o Executivo, o plano, preparado com base em estudos do Cemaden, Inmet, ANA, SGB, Defesa Civil Nacional e Inpe, busca preparação antecipada para possíveis impactos. Entre as prioridades estão o mapeamento das áreas mais vulneráveis e a definição de estratégias de prevenção, preparação e resposta integradas com estados e municípios.
Do montante total, R$ 998 milhões serão aplicados em abastecimento de alimentos, segurança alimentar, assistência à saúde e monitoramento hidrológico. Na esfera ambiental, o enfrentamento de incêndios florestais receberá reforço por meio da Medida Provisória nº 1.367/2026, publicada em 12 de junho, que autorizou crédito extraordinário para ampliar a atuação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
O plano também reserva R$ 25 milhões para monitoramento dos níveis dos rios, R$ 65 milhões para a distribuição de 350 mil cestas de alimentos a povos e comunidades tradicionais, pescadores artesanais e agricultores familiares, além de R$ 13 milhões destinados ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), com benefício estimado a cerca de 21,6 mil agricultores da Região Norte.
Especialistas consultados destacaram a necessidade de investimentos permanentes, como ampliação da rede de radares Doppler, estações meteorológicas automáticas e modelos de previsão; integração entre meteorologia, Defesa Civil, prefeituras, mídia e telefonia para avisos; obras de drenagem urbana e contenção de encostas; fortalecimento da segurança hídrica e energética; expansão do seguro rural e crédito emergencial; e preparação da rede de saúde para ondas de calor e problemas respiratórios.
Borges observou que, no caso do tornado no RS, a limitada cobertura de radares comprometeu a detecção de rotações próximas ao solo, o que evidencia a necessidade de ampliar a malha de monitoramento meteorológico no país.
Riscos e prioridades no Triângulo Mineiro
De acordo com William Borges, o El Niño já influencia as temperaturas no Brasil e os efeitos no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba devem se intensificar entre agosto e setembro, com pico esperado durante a primavera, especialmente entre outubro e dezembro de 2026.
Até setembro, as principais preocupações apontadas são temperaturas acima da média, ondas de calor antecipadas, baixa umidade do ar, vegetação mais seca, aumento de incêndios e fumaça, além da redução da umidade do solo e dos níveis de córregos e reservatórios.
Para a primavera, Borges afirmou que o risco maior é a irregularidade da estação chuvosa: primeiras precipitações podem atrasar, ser mal distribuídas ou sofrer interrupções por veranicos. Quando houver combinação de calor e umidade, podem ocorrer tempestades intensas com raios, granizo, vendavais e chuvas fortes em curto período. A previsão de chuva para o Sudeste carrega mais incerteza do que para o Sul, pois depende também do Atlântico e de sistemas regionais.
No cotidiano da região, os efeitos esperados incluem maior desconforto térmico, piora da qualidade do ar, aumento do consumo de água e energia, maior risco de queimadas, prejuízos à agricultura e ao abastecimento, alta no preço de alguns alimentos, interrupções no fornecimento de energia e alagamentos durante tempestades intensas.
Para atenuar esses impactos, foram apontadas medidas como ampliação da rede de estações meteorológicas e radares, fortalecimento das brigadas de combate a incêndios no Cerrado, preservação de nascentes e monitoramento de reservatórios, melhorias na drenagem urbana, apoio a produtores com seguro e irrigação eficiente, e preparação da rede hospitalar para enfrentar ondas de calor e aumento de doenças respiratórias. Especialistas reforçam que esses investimentos devem ser estruturais e contínuos, não ações pontuais após desastres.
Modelos climáticos e instituições internacionais acompanham o cenário: o Inmet registrou indicadores no Pacífico favoráveis ao desenvolvimento de novo episódio do El Niño, e a NOAA estima 97% de probabilidade de o fenômeno permanecer ativo até o início de 2027, com 81% de chance de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.
Com informações de Paranaibamais




