O principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa, acumulou queda de 18% na semana marcada pelo segundo turno das eleições presidenciais, que consolidou a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O índice fechou a semana em 167.922 pontos, após cinco pregões seguidos no vermelho.
Analistas ouvidos pelo G1 atribuem a forte desvalorização a uma revisão das expectativas do mercado após o resultado eleitoral. Segundo a consultoria Elos Ayta, trata-se da quinta pior semana do Ibovespa desde o Plano Real, ficando atrás apenas da semana encerrada em 20 de março de 2020 (queda de 18,88%), da semana de 31 de outubro de 1997 (‑22,17%), da semana encerrada em 10 de outubro de 2008 (‑20,01%) e da semana de 14 de setembro de 2001 (‑18,12%), ligada aos ataques às Torres Gêmeas.
Perdas em valor de mercado e câmbio
A Elos Ayta calcula que as empresas listadas na B3 perderam R$ 963 bilhões em valor de mercado na semana após o segundo turno, montante equivalente a uma Petrobras mais R$ 229 bilhões, segundo a consultoria. A pressão também se refletiu no câmbio: a Ptax — taxa de referência do dólar calculada pelo Banco Central — subiu 7,61% na semana, a maior alta semanal desde setembro de 2011 no levantamento que considera o período desde 1999. O recorde de alta semanal ocorreu em janeiro de 1999, com 21,11%.
Por que o mercado reagiu assim
Antes do segundo turno, o mercado havia precificado a vitória do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que era vista como indicadora de uma mudança de direção na política fiscal. Com a vitória de Lula, investidores passaram a redesenhar posições. Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, afirmou que a queda representa “a desmontagem de uma aposta”, lembrando que o Ibovespa saiu de cerca de 186 mil pontos no fim de setembro e chegou a superar 205 mil na sexta-feira anterior ao segundo turno.
Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, disse que o movimento teve forte contribuição de investidores estrangeiros, que começaram a reduzir exposição nos dias que antecederam o pleito. Segundo ele, parte da saída de capital aconteceu já na quinta e na sexta-feira anteriores ao segundo turno, e o ritmo se acelerou após o resultado, enquanto pessoas físicas compraram ações.
Dívida pública e demandas do mercado
Outra razão apontada para a turbulência é a preocupação com as contas públicas. A dívida bruta do país alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto, o equivalente a cerca de R$ 11,1 trilhões — ou aproximadamente 10 meses de produção da economia brasileira. Especialistas destacam que, diante de dúvidas sobre a capacidade do governo de controlar gastos, investidores tendem a exigir retornos maiores, o que pressiona juros e torna a renda fixa relativamente mais atraente que ações.
Luiz Dornelas, CEO do Grupo Ludo, afirmou que a queda traduz uma revisão de expectativas e maior cautela, mas ressaltou que não se trata de um único fator: “os dados fiscais ajudam a entender a vulnerabilidade do mercado, mas não permitem atribuir toda a queda da semana a esse fator. O ambiente internacional, as perspectivas das empresas e o reposicionamento dos investidores também precisam ser considerados.”
Emerson Vieira De Farias Junior, gestor de câmbio e contas internacionais da Convexa Investimentos, colocou o risco fiscal como ponto central e disse que o mercado espera sinais claros sobre a equipe econômica. “Nosso problema não é falta de dólar. O Banco Central tem reservas robustas. O ponto é o risco fiscal. O mercado agora quer dois sinais claros: quem será o ministro da Fazenda e qual será o plano fiscal crível para ancorar as expectativas sobre a dívida”, afirmou.
O que vem pela frente
Especialistas consultados pelo G1 esperam manutenção da volatilidade nos próximos dias, com atenção à formação da equipe econômica e à definição de um plano fiscal. Outro evento relevante será a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a Selic, prevista para a quarta-feira (4), cuja expectativa mudou: antes da eleição havia chance de corte de 0,25 ponto percentual; agora o mercado vê maior probabilidade de manutenção da taxa em 13,75%.
Analistas também apontam que, apesar do tombo, cenários de alta pontual não são descartados. Luiz Dornelas considera possível um repique parcial com investidores retornando após a forte desvalorização, mas alerta que recuperações momentâneas não garantem uma mudança sustentável de tendência. Ricardo Trevisan afirma que um movimento de alta nos próximos dias “não seria surpresa”, mas que uma retomada consistente dependerá de compromissos fiscais claros com nomes e números. Marcos Praça acrescentou que a próxima semana pode trazer mais clareza, citando a decisão do Copom e as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos como fatores a observar, além das tensões no Oriente Médio e da alta do petróleo que podem seguir pressionando os mercados.
O mercado seguirá monitorando os próximos sinais do governo sobre políticas fiscais e econômicas para avaliar possíveis caminhos de recuperação ou continuidade da volatilidade.
Com informações de G1




