19.9 C
Uberlândia
sábado, outubro 31, 2026

Afastamentos por ludopatia atingem recorde em 2026 após expansão das apostas on-line

Resumo dos dados

Levantamento exclusivo do g1 com números da Previdência Social aponta que, entre janeiro e agosto de 2026, foram concedidos 377 afastamentos do trabalho por ludopatia (CID F63.0), cifra que supera os 312 casos registrados no ano anterior. Os benefícios pagos até agosto de 2026 somavam R$ 1,9 milhão; o gasto com concessões em junho deste ano foi seis vezes maior do que em 2023. Desde junho de 2023 até agosto de 2026, os afastamentos custaram pelo menos R$ 4,8 milhões à Previdência, segundo cálculo do g1 confirmado pela própria pasta.

Quem, quando e onde

Os registros usados no levantamento se referem a trabalhadores que contribuem para o INSS e que precisaram se afastar por mais de 15 dias, após perícia médica que classificou o quadro como jogo patológico (CID F63.0). O levantamento mostra que, historicamente, até 2022 os afastamentos por ludopatia ficavam em torno de dez por ano, com aumento a partir de 2023. São Paulo concentra cerca de um em cada três afastamentos, com 297 benefícios; outros estados com números elevados são Minas Gerais (110), Rio Grande do Sul (76), Rio de Janeiro (68) e Paraná (58).

Por que os números subiram

O estudo do g1 relaciona a escalada dos afastamentos à chegada e expansão das casas de apostas on-line, liberadas no Brasil em 2018 e regulamentadas na sequência. Psiquiatras e especialistas apontam que a disponibilidade permanente via celular acelerou o processo de dependência, reduzindo o tempo entre o início das apostas e o colapso financeiro e social do apostador.

Subnotificação e limitações dos dados

O próprio Ministério da Previdência alerta para subnotificação: a contagem considera apenas o CID F63.0, que identifica jogo patológico, mas muitos apostadores com quadro grave apresentam depressão e ansiedade e são registrados com outros códigos. Além disso, a base analisa apenas quem teve licença superior a 15 dias e é contribuinte do INSS. O tempo de afastamento passou a constar nos registros apenas a partir de junho de 2023, o que impediu o cálculo retroativo dos custos completos.

Impacto econômico e na saúde

Em 2025, as apostas provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento dos brasileiros, segundo o Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros. Desde a regulamentação, o governo arrecadou R$ 15,3 bilhões até agosto de 2026. Estimativas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) apontam custos associados às apostas de pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano, incluindo atendimento de saúde, endividamento e benefícios previdenciários.

Casos e relatos

O levantamento traz relatos de quem precisou se afastar. A atendente de telemarketing Vitória Macedo, de 29 anos, perdeu mais de R$ 30 mil em apostas on-line, incluindo saques do FGTS, e precisou se afastar do trabalho para tratamento de ludopatia e depressão. Vitória ainda trabalha na empresa, tem suporte familiar, mas mantém dívidas e parcelamentos decorrentes do vício. Outro caso citado é o de Ana Moraes, 38 anos, cuja família perdeu estabilidade financeira após o marido começar a apostar on-line em março de 2023; nove meses depois as dívidas e perdas de bens somaram, segundo ela, mais de R$ 3 milhões.

Como o vício age no cérebro

A psiquiatria reconhece o transtorno do jogo como doença desde 1980. Especialistas consultados pelo g1 explicam que o vício em apostas atua nos mesmos circuitos cerebrais relacionados a substâncias como álcool e drogas, com liberação de dopamina tanto na expectativa quanto no resultado, formação de tolerância, perda de controle e busca por recuperar perdas. No ambulatório do Hospital das Clínicas de São Paulo, o psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo informa que 80% dos pacientes já tiveram pensamentos suicidas ou tentativas de suicídio em algum momento da doença.

Regulação, investigação e mercado ilegal

As casas de apostas foram liberadas em 2018 e, com a regulamentação implementada em 2023, passaram a cumprir exigências como autorização para operar, pagamento de taxas e oferta de ferramentas de proteção ao jogador (limites e autoexclusão). Ainda assim, há reclamações e investigações: o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) apura prática de assédio por uma empresa investigada, a BetBoom, que teria acionado por WhatsApp uma apostadora com ludopatia e até oferecido bebida alcoólica. A Justiça bloqueou R$ 97 mil nas contas da empresa como garantia para eventual indenização; o promotor Paulo Roberto Binicheski conduz investigação e move ações civis públicas que já somam pedidos de indenização superiores a R$ 100 milhões.

Binicheski alerta para o risco de migração das apostas regulamentadas para o mercado ilegal após medidas provisórias que proibiram as bets, e defende ações mais duras sobre meios de pagamento e fiscalização. O psiquiatra Tazinaffo também defende o fim das bets, mas ressalta a necessidade de uma estratégia firme contra o mercado ilegal.

Pressão sobre o SUS e serviços disponíveis

Especialistas relatam que o Sistema Único de Saúde (SUS) não estava preparado para o aumento de procura por atendimento em saúde mental relacionado a apostas. O país tem cerca de 3.070 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e cerca de 49 milhões de trabalhadores com carteira assinada, o que resulta em média de quase 16 mil trabalhadores por CAPS. Atendimentos por ludopatia na atenção básica passaram de 668 em 2021 para 1,2 mil em 2022 e alcançaram mais de 6,4 mil em 2025.

O Ministério da Saúde informa que ampliou investimentos em saúde mental (o orçamento da área cresceu de R$ 1,7 bilhão em 2022 para R$ 2,9 bilhões em 2025), criou 6,2 mil equipes multiprofissionais para as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e desde 2026 oferece teleatendimento pelo aplicativo Meu SUS Digital, com capacidade para 100 mil atendimentos por mês. O serviço de teleconsulta, iniciado em março de 2026, permite até dez sessões iniciais por videochamada, com avaliação posterior para continuidade ou encaminhamento presencial.

Onde buscar ajuda

Quem enfrenta sofrimento ou conhece alguém em risco pode procurar o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone 188, 24 horas, ou pelo site cvv.org.br. O SUS atende pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas via UBS e CAPS, além de oferecer atendimento on-line pelo Meu SUS Digital.

O aumento dos afastamentos por ludopatia e os custos associados ressaltam a combinação de disponibilidade tecnológica das apostas e desafios de resposta da saúde pública, sem, porém, encerrar a discussão sobre medidas regulatórias e de prevenção.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
Últimas Notícias
Veja também