Nas últimas semanas, uma série de episódios de violência e ataques contra mulheres voltou a ganhar destaque nas redes e na imprensa: o feminicídio da policial militar Gisele Alves Santana, em São Paulo; o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro; e vídeos no TikTok em que homens simulam agressões contra mulheres que recusam pedidos de casamento. Investigações apontam que esses casos não são isolados, mas parte de um conjunto mais amplo de práticas misóginas que circulam na internet e na política, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.
TRANSMISSÃO: de 130 mil canais misóginos (YouTube)
Quem e como operam
As apurações sobre a morte de Gisele Alves Santana indicam que o marido dela, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, acusado do crime, utilizava termos frequentes em comunidades misóginas, como “macho alfa” e “mulher beta”, que reforçam a ideia de superioridade masculina e submissão feminina. Pesquisadores ouvidos afirmam que tais expressões circulam em fóruns, canais de vídeo e grupos de mensagens que articulam discursos de ódio.
Origens e recrutamento
Acadêmicas e pesquisadores ressaltam que a misoginia tem raízes históricas e foi potencializada pela internet. A socióloga Bruna Camilo lembra que estruturas patriarcais precedem as redes, mas que os ambientes virtuais ampliaram a difusão desses conteúdos. O psicólogo social Benedito Medrado Dantas, da UFPE, aponta que reações ao avanço de direitos das mulheres contribuem para a intensificação do ódio.
Estudos e relatos apontam também para um recrutamento precoce de meninos para a chamada “machosfera”. Investigadores e ativistas identificaram crianças e adolescentes — alguns com idades entre 12 e 14 anos — sendo alvos em plataformas como Discord e Telegram. A pesquisadora Julie Ricard, da FGV, identificou 85 comunidades abertas no Telegram, além de outras que se apresentam como espaços neutros (autoajuda, vida fitness) e funcionam como portas de entrada para narrativas misóginas.
Motivações e liderança
Especialistas descrevem que o engajamento nesses grupos se alimenta de frustração, isolamento e insegurança, sobretudo entre jovens em formação de identidade e homens em vulnerabilidade econômica. Segundo relatos, a linguagem dos memes e do humor facilita a assimilação de mensagens violentas. A liderança desses movimentos costuma envolver homens mais velhos, com cerca de 40 anos ou mais, que articulam e mantêm as redes de recrutamento e radicalização.
Papel das plataformas e ligação política
Pesquisadores apontam ainda a responsabilidade das grandes plataformas na circulação desses conteúdos. Estudos do NetLab, da UFRJ, mapearam mais de 130 mil canais misóginos no YouTube, e observam que temas como “sedução”, “relacionamentos” e “vencer a timidez” servem como ponte para materiais de ódio. Especialistas citam assimetrias na moderação de conteúdo e afirmam que, em alguns casos, ataques misóginos permanecem sem sanção, enquanto canais sobre direitos reprodutivos têm publicações removidas.

Além disso, há menções a afinidades ideológicas entre lideranças de algumas big techs e setores da extrema-direita, cita-se o exemplo de empresários que participaram da administração de Donald Trump, como forma de ilustrar essa ponte entre discurso misógino e política.
Soluções apontadas
Entre medidas discutidas por especialistas estão o fortalecimento da legislação e da fiscalização sobre crimes na internet, políticas públicas voltadas à educação de meninos e adolescentes e mecanismos mais rígidos de regulação das plataformas digitais. A Lei nº 13.642/2018, que determina investigação de crimes de ódio contra mulheres na internet, é citada como avanço, mas há quem defenda a tipificação criminal da misoginia para reduzir sensação de impunidade.
Ao final, pesquisadores ouvidos enfatizam a necessidade de atuação em frentes múltiplas — judicial, educativa e regulatória — para enfrentar a rede que vincula misoginia, plataformas digitais e projetos políticos.




