O Brasil voltou a viver um problema no Sistema Interligado Nacional (SIN), desta vez por excesso de oferta de energia. Quase 25 anos após o apagão de 2001 provocado pela falta de capacidade para atender à demanda, o país tem enfrentado episódios em que a geração supera o consumo, obrigando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a tomar medidas para equilibrar a rede.
No dia 7 de junho, o ONS acionou um plano emergencial — a primeira vez que utilizou a ferramenta desde que um procedimento para enfrentar o excesso de oferta foi aprovado em novembro do ano passado — para reduzir ou desligar a entrada de eletricidade na rede, procedimento técnico conhecido como curtailment. Em nota, o órgão afirmou que se tratou de “uma ação excepcional adotada para o processo de controle de frequência do sistema elétrico”, necessária naquele domingo devido à combinação de alta geração, queda de consumo em razão do feriadão de Corpus Christi e temperaturas mais baixas. Cortes também foram feitos em dias de jogos do Brasil na Copa do Mundo.
Para especialistas, o equilíbrio entre oferta e demanda é essencial para o funcionamento do sistema elétrico. Segundo Joisa Dutra, diretora do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ceri), a novidade é a participação expressiva da geração distribuída, que não fica sob comando centralizado do ONS e, portanto, não pode ser desligada diretamente pelo operador em situações de excesso.
Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) apontam que, dos cerca de 90 milhões de consumidores, 4,5 milhões (5%) são também micro e minigeradores por meio de painéis solares — a chamada geração distribuída. Desse total, 3,6 milhões são residenciais, 400 mil comerciais e 500 mil pertencem a categorias como poder público, serviço público e rural. A potência instalada desses consumidores-geradores soma 50 gigawatts, equivalente a cerca de 20% da potência total instalada do país.
Joisa alertou que esse valor pode estar subestimado e que análises do ONS apontam para possível subnotificação de até 15 gigawatts — cerca de 30% do total — em instalações classificadas pelo operador como “à revelia”. Enquanto usinas convencionais e parques de grande porte são controlados pelo ONS, a geração distribuída depende da ação das concessionárias para eventuais desligamentos, o que reduz a capacidade de resposta do sistema.
Representantes do setor também destacam impactos econômicos. A presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum, afirma que o curtailment causa prejuízos a investidores. A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) reconhece a intensificação dos cortes, mas atribui o problema a uma expansão da geração renovável sem contrapartidas suficientes em flexibilidade operacional, armazenamento e modernização da infraestrutura.
Além da geração distribuída, especialistas citam subsídios como fator que incentivou o crescimento acelerado da capacidade renovável, com isenções fiscais e linhas de crédito que estimularam investimentos em solar e eólica. O coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, Nivalde Castro, defende que, no curto prazo, o curtailment é a medida disponível, enquanto projetos de armazenamento em baterias e usinas reversíveis são apontados como soluções a médio prazo.
O cenário operacional convive, ainda, com impactos na tarifa: entre junho e o ano passado, a conta de luz residencial acumulou alta de 8,79%, frente a uma inflação geral de 4,64% no acumulado de 12 meses até junho, segundo o IBGE. Para alguns analistas, medidas aprovadas entre janeiro de 2023 e maio de 2026 podem aumentar custos futuros das contas de energia, e o debate sobre governança e políticas públicas no setor vem ganhando espaço entre autoridades e especialistas.
O tema segue em discussão entre operadores, associações do setor e órgãos de governo, com atenção para a implantação de tecnologias de armazenamento e para ajustes regulatórios que aumentem a flexibilidade do sistema.
Com informações de G1




