Um ano depois da inauguração da sua fábrica em Camaçari (BA), a BYD informou que pretende iniciar, entre novembro e dezembro, a produção de carros com completa realização das etapas industriais no Brasil. O anúncio foi feito em coletiva realizada na Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), em Salvador, nesta quinta-feira (29).
De acordo com Alexandre Baldy, vice-presidente da fábrica, os complexos de estamparia, soldagem e pintura já estão em fase de testes. A expectativa é concluir essa fase em novembro e, em seguida, iniciar a produção nacional entre novembro e dezembro.
O primeiro modelo a ser totalmente produzido localmente será o Atto 2, um híbrido plug-in que combina motor elétrico com motor a combustão, apto a utilizar gasolina e etanol. O veículo tem preços anunciados entre R$ 149.990 e R$ 166.660.
A ampliação das etapas industriais no país também visa atender requisitos de conteúdo local estabelecidos em acordos comerciais, como as regras do Mercosul, que exigem ao menos 35% de componentes produzidos localmente.
Interesse no antigo Porto da Ford
A BYD declarou interesse em adquirir o Terminal Portuário Privativo Miguel de Oliveira, conhecido como Porto da Ford, localizado em Candeias, a cerca de 35 km de Camaçari. A estrutura, construída para escoar veículos fabricados pela Ford na Bahia, foi desativada após a saída da montadora do estado em 2021 e atualmente pertence ao governo baiano.
Baldy afirmou que a intenção é montar uma operação integrada, aproveitando a posição da fábrica e a infraestrutura portuária para atender mercados das Américas e exportar veículos produzidos na Bahia. A empresa, porém, classificou a aquisição do porto como um interesse, sem negócio concluído.
Capacidade produtiva e investimentos
Antes da operação dos novos complexos, os veículos chegavam da China pré-montados e recebiam componentes essenciais na unidade baiana. Com a entrada em operação da estamparia, soldagem e pintura, a maior parte do processo industrial poderá ser realizada no Brasil. A estamparia molda as chapas de aço, a soldagem junta as partes e a pintura protege e dá acabamento antes da montagem final e dos testes.
Atualmente, a fábrica produz cerca de 700 veículos por dia, com modelos como Dolphin Mini, Song Pro, Atto 2 e King. A instalação é o maior polo da BYD fora da China. A empresa informou ter investido R$ 11 bilhões no complexo, que ocupa cerca de um milhão de metros quadrados de área construída, e projeta dobrar o tamanho da estrutura nos próximos anos.
Emprego e impactos locais
Segundo dados apresentados na coletiva, a planta gera nove mil empregos diretos. A BYD espera chegar a 10 mil vagas ainda em 2026 e alcançar 20 mil quando todos os investimentos previstos forem concluídos. Pesquisa do Observatório da Indústria da Fieb aponta salário médio de R$ 3,9 mil entre os trabalhadores da fábrica, valor 24% acima da média da indústria baiana.
A parceria entre a Fieb e a BYD monitora efeitos econômicos da instalação em Camaçari por meio de registros oficiais de emprego, movimentações do mercado de trabalho formal e dados empresariais, com o objetivo de comparar a situação econômica do município antes e depois da chegada da montadora e projetar os impactos da operação.
Cenário do setor
O avanço da BYD ocorre em um contexto de incremento nas importações de veículos no país. Dados da Anfavea mostram que o Brasil importou 406,7 mil veículos nos oito primeiros meses de 2026, alta de 29,8% sobre o mesmo período de 2025. Mais da metade das unidades, 221 mil veículos, veio da China, um crescimento de 109,9% em relação ao ano anterior.
O crescimento das marcas chinesas tem sido tema de comentário de executivos do setor. Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul, afirmou no início de outubro que a indústria ocidental subestimou a velocidade da eletrificação e criticou a competitividade no Brasil, apontando que a falta de incentivos e de previsibilidade dificulta o fortalecimento da cadeia de fornecedores locais e pode tornar componentes nacionais mais caros que os chineses.
A evolução do plano da BYD na Bahia dependerá da entrada em operação dos novos complexos industriais e das negociações sobre o antigo Porto da Ford.
Com informações de Uberlandianofoco




