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domingo, novembro 8, 2026

Câmeras com IA tentam antecipar crimes e geram preocupações sobre privacidade

Sistemas de monitoramento usam inteligência artificial para alertar sobre comportamentos atípicos

Soluções de vigilância equipadas com inteligência artificial estão deixando de ser apenas ferramentas de gravação e passando a sinalizar, em tempo real, situações consideradas fora do padrão que podem anteceder delitos. Empresas privadas e condomínios têm adotado tecnologias de policiamento preditivo que analisam imagens e emitem notificações quando detectam comportamentos suspeitos, como uma pessoa parada por tempo excessivo em um ponto.

Segundo Nicolau Ramalho, fundador da NoLeak, os equipamentos conectam-se às câmeras, convertem imagens em metadados e reconhecem padrões; ao identificar alterações nesses padrões, o sistema dispara alertas. A NoLeak afirma ter mais de 5 mil câmeras integradas e 100 clientes, e diz que a ferramenta reduz o cansaço visual dos operadores, permitindo acompanhar até dez vezes mais câmeras com o mesmo número de funcionários. A empresa também usa a mesma tecnologia para monitorar falhas em linhas de produção e identificar trabalhadores fora de seus postos ou sem equipamentos de proteção.

Os modelos mais avançados que suportam o policiamento preditivo empregam aprendizado de máquina: em vez de seguir regras fixas, eles assimilam grandes volumes de vídeo para mapear o que é comportamento rotineiro e, com isso, sinalizar desvios. Ramalho explica que o sistema precisa de cerca de duas semanas de análise dos metadados para consolidar a base que permite reconhecer padrões. Ele destaca que a ferramenta não realiza identificação facial: a imagem é transformada em sequências numéricas para fins de detecção de movimento ou anomalia.

Outras empresas do setor, como Actuate, AxxonSoft e Coram, promovem soluções que transformam câmeras tradicionais em dispositivos capazes de prever possíveis crimes. Em empresas e fábricas, recursos adicionais são usados para medir ocupação em esteiras e vigiar conformidade com regras internas.

Especialistas e organizações de defesa de direitos apontam riscos associados ao uso disseminado dessas tecnologias. Fernanda Rodrigues, coordenadora de pesquisas do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS-BH), alerta para a possibilidade de erros que afetem pessoas comuns e para a falta de transparência sobre a eficácia e eventuais vieses desses sistemas. Ela ressalta que, em outros países, ferramentas semelhantes já ampliaram padrões de vigilância em comunidades vulneráveis.

Como exemplo internacional, o caso do PredPol nos Estados Unidos foi citado: a plataforma usava dados históricos sobre crimes para orientar rondas policiais e acabou concentrando patrulhamento em bairros de renda mais baixa e com menor proporção de moradores brancos. A polícia de Los Angeles deixou de empregar o PredPol em 2020 após críticas de grupos ativistas sobre a eficiência do sistema e a vigilância excessiva em comunidades negras e latinas.

No Brasil não há legislação específica sobre policiamento preditivo, mas a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) regula o tratamento de dados sensíveis, como biometria facial. Em 2025, uma portaria do Ministério da Justiça e Segurança Pública autorizou o uso de inteligência artificial por polícias desde que haja revisão humana em casos que possam afetar direitos fundamentais. Há também um projeto de lei, aprovado no Senado e em tramitação na Câmara, que pretende classificar como de alto risco os sistemas de IA empregados por forças policiais e impor requisitos como supervisão humana, avaliação de impacto, direito à explicação e medidas para reduzir discriminações.

As empresas desenvolvedoras afirmam que seus sistemas não atuam de forma autônoma: os alertas são encaminhados a um sistema de gestão de vídeo para que operadores ou responsáveis em segurança decidam quais medidas tomar, incluindo acionar a polícia ou equipes de segurança privada.

O debate segue entre o avanço de ferramentas tecnológicas para prevenção de crimes e as questões relativas à regulação, transparência e proteção de direitos individuais.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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