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terça-feira, outubro 20, 2026

O cofre do Fed em Nova York que guarda milhares de toneladas de ouro — e por que países europeus avaliam trazê-lo de volta

Quem e o que: No subsolo do prédio do Federal Reserve em Liberty Street, em Nova York, há um cofre que guarda centenas de milhares de barras de ouro pertencentes a bancos centrais, governos e instituições de diversos países. A câmara-forte, localizada a 25 metros abaixo do nível da rua, é protegida por um cilindro de aço de 90 toneladas cuja fechadura, após ser trancada, só pode ser aberta no dia seguinte.

Quantidade e valor: Conhecido como o Cofre de Ouro do Fed, o depósito reúne cerca de 6,3 mil toneladas de ouro — agrupadas em pilhas de barras — cujo valor atual ultrapassa US$ 1 trilhão (aproximadamente R$ 5 trilhões), o equivalente a cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos. No total, o cofre abriga mais de meio milhão de barras.

Por que é importante: O ouro armazenado ali desempenha papel central na estabilidade do sistema financeiro global. Bancos centrais tratam o metal como ativo de proteção, usado para respaldar moedas, atuar como apoio em crises e intervir em mercados cambiais. Para muitos países europeus, o ouro tem função de lastro e de reserva estratégica.

Como e quando o ouro foi para os EUA: A acumulação de reservas europeias no cofre do Fed começou na década de 1950. Economias europeias em recuperação recebiam pagamentos em combinação de dólares e ouro, e o custo e o risco de transporte físico do metal levaram governos a optar pela custódia do Federal Reserve, que não cobrava pela guarda. O sistema de Bretton Woods, criado em 1944, reforçou o papel do ouro e do dólar como ativos confiáveis naquele período.

Preocupações recentes e pedidos de repatriação: O retorno de Donald Trump à presidência dos EUA suscitou questionamentos sobre a conveniência de manter reservas europeias em solo americano. Divergências com aliados em temas como tarifas comerciais, a questão da Groenlândia e tensões envolvendo o Irã elevaram a apreensão sobre a segurança do ouro guardado no cofre do Fed. Economistas e representantes públicos na Alemanha, país que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, têm defendido a repatriação parcial ou total.

O economista Emanuel Mönch, ex-pesquisador principal do Bundesbank, afirmou que “dada a atual situação geopolítica, parece arriscado manter tanto ouro nos Estados Unidos” e que trazê-lo de volta aumentaria a “independência estratégica”. Michael Jäger, presidente da Associação Alemã de Contribuintes, declarou que “Trump é imprevisível” e que isso coloca em risco o acesso alemão ao metal. Deputados da CDU e outros políticos também manifestaram preocupação.

Reações das autoridades: O presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, procurou tranquilizar, dizendo que “não há motivo para preocupação” e que tem “total confiança” nos colegas do banco central dos EUA. Por outro lado, nem o Federal Reserve nem o governo americano deram declarações públicas que reafirmem essa confiança, segundo relatos. A relação tensa entre o governo e o presidente do Fed, Jerome Powell — alvo de críticas de Trump e de uma investigação do Departamento de Justiça — aumentou as apreensões.

Histórico de repatriações e custos: Países europeus já realizaram retornos de ouro antes: a Holanda reduziu de 51% para 31% a parcela de suas reservas depositadas no Fed a partir de 2014, e parte das barras da Alemanha também foi trazida de volta naquele período. No passado, na década de 1960, a França repatriou barras por decisão de Charles de Gaulle. Especialistas destacam, porém, que a repatriação envolve custos logísticos e de segurança significativos e que a independência do Federal Reserve limita ações unilaterais do Executivo americano.

O volume de ouro depositado em Nova York caiu desde o pico de mais de 12 mil toneladas registrado em 1973, mas o cofre continua a concentrar grande parte das reservas internacionais. Alguns analistas, como Clemens Fuest, do Instituto IFO, alertam que retirar o ouro agora poderia agravar as tensões existentes e ter consequências indesejadas.

Não há registro de que algum país europeu tenha decidido, até o momento, repatriar suas reservas durante o segundo mandato de Trump. Em discurso no ano passado, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, observou que “na história do sistema monetário internacional, há momentos em que os alicerces que pareciam inabaláveis começam a tremer”.

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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