Quem e o que: Professores de redes públicas de diferentes estados compartilharam no Dia dos Professores, 15 de outubro, relatos publicados em comentários nas redes sociais do g1 sobre condições de trabalho que consideram insustentáveis. Os depoimentos, reunidos pela reportagem, descrevem sobrecarga, turmas superlotadas, agressões em sala, ausência de recursos e remuneração considerada defasada.
Salas superlotadas e jornadas exaustivas
Janaína Jascone, 43 anos, professora em Santo André (ABC paulista), contou que enfrenta manhãs com até seis aulas seguidas e turmas muito cheias — em 2025 chegou a lecionar para uma classe com 49 adolescentes. Ela afirma que, em aulas de 50 minutos, grande parte do tempo é dedicada à mediação de conflitos e não ao ensino do conteúdo.
Hudson Araújo, professor de História da rede estadual de Roraima, relata o aumento das atribuições impostas aos docentes e a expectativa de que atuem simultaneamente como pais, líderes religiosos, psicólogos e assistentes sociais em salas com cerca de 40 alunos, além da pressão por cumprir metas e processos digitais.
Agressões, indisciplina e fragilidade da relação com famílias
Leviston Silveira, que leciona nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio em Curitiba, questiona a eficácia das medidas disciplinares disponíveis e afirma que, muitas vezes, intervenções como a retirada temporária do aluno não têm efeito duradouro. A pesquisa “O Estado do Professor Brasileiro”, do Instituto Casagrande, aponta perda de autoridade especialmente no ensino fundamental I (93,4% dos docentes relataram esse problema) e indica que o ensino fundamental II concentra os maiores índices de esgotamento e intenção de abandono da profissão.
Maria Luzia, docente da educação infantil em Brasília, relatou episódios de agressão física e de descredibilização por parte de familiares. Ela descreve ter recebido um tapa no rosto por parte de uma criança e, ao comunicar os responsáveis, ter enfrentado a acusação de que teria provocado o ato. Maria, que estava em contrato temporário, deixou o trabalho após o nascimento do filho e chora ao pensar em retornar.
Falta de materiais, infraestrutura e inclusão prejudicada
Levantamentos citados na reportagem mostram que cerca de 80% das escolas públicas do ensino fundamental II não dispõem de laboratórios, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica da ONG Todos Pela Educação. Leviston afirma que essa carência aumenta o desinteresse dos alunos e contribui para o adoecimento dos professores.
Janaína relatou falhas técnicas que comprometeram atividades planejadas: falta de manutenção de equipamentos, cabos e conexão que inviabilizaram a exibição de trabalhos multimídia. Maria contou que comprou impressora e materiais com recursos próprios para atender às necessidades de um aluno com deficiência, pois a escola não permitia impressão colorida.
Os docentes destacam a dificuldade de incluir alunos com necessidades especiais sem a presença de auxiliares e apoio especializado. Leviston citou casos de estudantes com transtorno do espectro autista, TDAH e depressão convivendo em turmas numericamente elevadas sem amparo adequado.
Remuneração e jornada além da sala de aula
O relatório Education at a Glance 2026, da OCDE, indica que apenas 22,3% dos professores dos anos finais do ensino fundamental estão satisfeitos com o salário. Os entrevistados afirmam que, mesmo com avanços trazidos pelo piso nacional do magistério, a remuneração não acompanha a carga de trabalho nem a qualificação acadêmica — alguns docentes em pós-graduação relatam que a progressão salarial permanece insuficiente.
Os professores enfatizam que a rotina inclui planejamento, correção e atividades fora do horário em sala, multiplicando a jornada real de trabalho.
Principais reivindicações
Os profissionais ouvidos na reportagem apresentaram demandas claras: valorização e equiparação salarial com cumprimento integral do Piso Nacional do Magistério sem artifícios, redução do número de alunos por turma, devolução da autonomia pedagógica e flexibilização do uso obrigatório de plataformas digitais, fim da aprovação compulsória para evitar maquiação de indicadores, maior responsabilização e acompanhamento das famílias, redes públicas efetivas de apoio à saúde mental e garantia de direitos para contratados temporários. Também pedem melhorias na infraestrutura básica das escolas, como carteiras, climatização, fiação funcional e laboratórios antes da expansão de modelos como o ensino em tempo integral.
Os relatos mostram que, apesar do apego à profissão e ao impacto que consideram exercer na vida dos estudantes, muitos docentes se sentem desamparados e questionam as condições que enfrentam diariamente em sala de aula.
Com informações de G1




