Água e saúde dominam campanha em estado agrícola
Iowa, um dos principais Estados produtores de milho, soja e suínos dos EUA, trouxe para o centro das campanhas das midterms questões antigas, como a qualidade da água e o aumento de casos de câncer, que ganharam espaço entre candidatos a cargos estaduais e federais. Problemas econômicos e um déficit orçamentário já pressionavam o setor agrícola, mas a preocupação com a água potável e a saúde pública passou a ter peso eleitoral.
O debate envolve agricultores, populações urbanas e autoridades. Fertilizantes químicos e dejetos animais, ricos em nitrato e fósforo, chegam aos cursos d’água por meio da chuva e do degelo, gerando atrito entre centros urbanos, que dependem de rios para abastecimento, e áreas rurais, onde a maioria dos produtores é conservadora. Apesar de práticas de conservação estarem sendo adotadas por muitos agricultores, críticos dizem que a ausência de regras rígidas transfere o custo da poluição para quem vive rio abaixo.
Os índices de câncer no estado chamam atenção: Iowa tem a segunda maior taxa de novos diagnósticos nos EUA, com aumento mais acelerado em alguns tipos, como próstata, mama e pulmão. Pesquisa da Universidade de Iowa, financiada pelo governo estadual, aponta que fatores demográficos e comportamentais — incluindo tabagismo e consumo excessivo de álcool em episódios isolados — explicam grande parte, mas não totalmente, do excesso de casos em cinco tipos de câncer. A próxima etapa do estudo avaliará fatores ambientais, entre eles os níveis de nitrato na água.
Na campanha ao Senado, o democrata Josh Turek afirma que nitratos na água são um problema central e defende que todo morador tenha segurança sobre a potabilidade ao abrir a torneira. A deputada federal republicana Ashley Hinson, sua adversária, terceirizou o debate para uma mesa com agricultores e pesquisadores, defendendo investimentos em infraestrutura, monitoramento e programas de conservação, e afirmou que a água tratada nas torneiras atende às normas federais.
Conflitos sobre custos e responsabilidades já chegaram ao Judiciário: a companhia de abastecimento da região de Des Moines processou administrações locais há mais de uma década para dividir despesas de remoção de nitratos, estimadas em cerca de US$ 16 mil por dia, mas a ação foi rejeitada. Em um episódio recente, a Central Iowa Water Works proibiu a irrigação de gramados para reduzir a sobrecarga do sistema de tratamento. Neste ano, o sistema de remoção de nitratos precisou funcionar por 193 dias consecutivos, recorde para a região, e, no auge do verão, a água tratada apresentou entre oito e nove miligramas de nitrato por litro, próximo ao limite federal de 10 mg/L.
O governo estadual e o setor público também movimentaram recursos: durante anos, o Estado investiu quase US$ 100 milhões por ano em medidas para reduzir nutrientes na água, e em maio a governadora republicana Kim Reynolds e parlamentares liberaram mais US$ 320 milhões para infraestrutura hídrica, incentivos à conservação e modernização de equipamentos da Central Iowa Water Works. Reynolds disse que a qualidade da água não é uma questão partidária e que os investimentos são “absolutamente inegociáveis”.
No pleito estadual pela Secretaria de Agricultura, a disputa expõe divergências sobre tornar obrigatórias medidas de conservação no campo. O pesquisador Chris Jones, que passou pelo monitoramento da água em Des Moines e agora concorre pelo Partido Democrata, afirma que a indignação pública cresceu. O atual secretário, o republicano Mike Naig, ligado ao setor agropecuário, rejeita a visão de que regras obrigatórias sejam a solução imediata e ressalta a ampliação de ações de conservação em curso.
Candidatos como o republicano Zach Lahn e o democrata Rob Sand enfatizam que o Estado deve dar mais atenção à qualidade da água; porém, nenhum dos dois defende obrigatoriedade imediata de práticas agrícolas para reduzir poluentes. Lahn, incomum entre concorrentes do próprio partido, correlaciona diretamente produtos agrícolas e poluição da água aos índices de câncer e relatou resultados elevados de nitrato em testes de poço e riacho locais. Sand, que costuma iniciar seus discursos citando a água limpa, disse ter ouvido relatos de moradores que são tão preocupados que consideram deixar o Estado.
A questão permanece central nas discussões eleitorais em Iowa, com impacto direto em políticas públicas e na relação entre zonas rurais e urbanas do Estado.
Com informações de G1




