O governo federal comemorou a saída do Brasil do chamado “Mapa da Fome” em julho de 2026, quando a Organização das Nações Unidas divulgou os dados que mostraram redução da subnutrição no país. Ainda assim, o relatório da FAO de 2026 revela que 44,8 milhões de pessoas — cerca de um quinto da população — não dispõem de renda suficiente para comprar uma dieta considerada saudável pela agência da ONU.
O estudo “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi)” também registra que 20,3 milhões de brasileiros viveram insegurança alimentar moderada ou grave entre 2023 e 2025, ou seja, tiveram acesso irregular a alimentos nutritivos em quantidade suficiente. No período anterior, entre 2021 e 2023, esse total havia sido de 39,7 milhões.
As populações mais afetadas concentram-se em domicílios chefiados por mulheres, com maior intensidade quando a chefia é feminina e negra, e nas regiões Norte e Nordeste. Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan, relaciona a alta prevalência à precariedade do trabalho enfrentada por esses grupos, como baixos salários, informalidade e variação de renda que torna as famílias mais vulneráveis à insegurança alimentar.
Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), aponta que as políticas públicas ainda esbarram na dificuldade de atender continuamente as pessoas em situação de maior vulnerabilidade. Segundo ela, o contato eventual com serviços públicos — como abrigo ou unidade de saúde — não se traduz em acompanhamento integrado e de longo prazo.
Histórico e políticas
O Brasil havia saído do Mapa da Fome em 2014, mas voltou a constar no indicador em 2022, quando a ONU registrou 61,3 milhões de brasileiros em insegurança alimentar. Em 2022, 4,1% da população — cerca de 8,6 milhões de pessoas — vivia em condição de subnutrição. Quatro anos depois, o relatório de julho de 2026 mostrou que a taxa de subnutrição caiu para menos de 2,5% em 2025, o que confirmou a retirada do país do mapa.
Especialistas atribuem a melhora a medidas de recomposição da renda e de recuperação de programas de segurança alimentar, entre elas reajustes do salário mínimo acima da inflação e a reativação de iniciativas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). O PAA compra alimentos de agricultores familiares, gerando renda no campo, e destina parte da produção a pessoas em situação de vulnerabilidade, assim como a escolas e hospitais.
Custo da alimentação saudável e dinâmica dos preços
Para estimar quantas pessoas não conseguem pagar por uma alimentação saudável, a FAO compara o custo de uma cesta variada de 11 alimentos — suficiente para cerca de 2.330 calorias diárias por pessoa segundo as recomendações — com a renda disponível após despesas básicas. A agência seleciona os produtos mais baratos que atendam às recomendações nutricionais em cada país. Em resposta ao g1, a FAO não detalhou quais itens foram usados no cálculo para o Brasil até a publicação da reportagem.
O custo diário dessa dieta no país aumentou de 3,97 dólares internacionais por pessoa em 2021 para 4,89 dólares internacionais em 2025. O número de brasileiros incapazes de pagar por uma alimentação saudável atingiu o ápice em 2021, no auge da pandemia, e vem caindo desde então, mas permanece alto, representando cerca de um quinto da população.
Graziano afirma que os reajustes do salário mínimo ainda não foram suficientes para assegurar o acesso a uma dieta saudável: segundo ele, uma cesta básica saudável custaria hoje entre R$ 240 e R$ 250 por mês por pessoa, ou cerca de R$ 1.000 para uma família de quatro membros — valor próximo ao salário mínimo de R$ 1.621. Outro fator destacado é que alimentos frescos e carnes têm alta volatilidade de preço e custos adicionais de transporte e refrigeração, enquanto produtos ultraprocessados apresentam aumentos menores.
Zimmermann observa que ultraprocessados costumam ser mais baratos porque utilizam matérias-primas amplamente disponíveis no país, como açúcar, gorduras e derivados de soja, o que reduz o custo final desses produtos em comparação com alimentos frescos.
Produção, logística e investimentos
Entre os entraves para reduzir preços e ampliar oferta de alimentos frescos estão a variação climática, que afeta hortaliças de ciclo curto, e a dependência de insumos importados, como fertilizantes e combustíveis, cujos preços foram pressionados por conflitos geopolíticos recentes. Graziano também aponta distribuição desigual de investimentos em pesquisa agropecuária, concentrados em culturas de exportação (soja, milho, carne bovina), enquanto frutas, verduras, legumes e culturas básicas como arroz e feijão recebem menos recursos.
Recine destaca ainda que polos de produção voltados à exportação, como o Vale do São Francisco (PE), priorizam culturas demandadas por mercados externos em vez de atender preferências e demandas locais, o que encurta a diversidade e encarece o abastecimento doméstico por meio de circuitos longos.
Propostas citadas no relatório e por especialistas incluem estímulo à produção local, venda direta ao consumidor, ampliação de feiras e isenções para feirantes, e fortalecimento da agricultura familiar — responsável por cerca de 60% da produção de hortaliças — por meio da expansão de programas como o PAA.
Desertos e pântanos alimentares e integração de serviços
O documento aponta que entre 2023 e 2024 cerca de 25 milhões de brasileiros viviam em desertos alimentares, com oferta reduzida de alimentos frescos; desse total, 6,7 milhões eram de baixa renda ou em situação de pobreza. Pântanos alimentares, áreas onde ultraprocessados são mais fáceis de achar do que produtos frescos, abrigavam aproximadamente 15 milhões de pessoas, entre as quais cerca de 104 mil moravam em favelas e comunidades urbanas.
Para alcançar os 20,3 milhões que enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave, Recine defende que o desafio central é garantir que políticas públicas cheguem de forma contínua e integrada a essas pessoas. O governo federal implementa o Protocolo Brasil Sem Fome, coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), para integrar em municípios com piores indicadores as redes de saúde, assistência social e segurança alimentar, de modo que o atendimento inicial gere encaminhamentos e acompanhamento permanentes.
Zimmermann acrescenta que a busca ativa, com cruzamento de dados do Cadastro Único e das bases de serviços públicos, é essencial para localizar famílias em situação de vulnerabilidade, orientar e facilitar o acesso a programas, além de atualizar cadastros quando necessário, transformando atendimentos pontuais em acesso contínuo a políticas de proteção alimentar.
Em maio de 2026, o Brasil propôs na Organização Mundial da Saúde a criação de normas globais para a venda e a publicidade de alimentos ultraprocessados com foco na proteção de crianças e adolescentes, e passou a buscar apoio internacional para levar a proposta a votação em 2027.
O relatório da FAO fornece dados que, segundo especialistas consultados, indicam avanços, mas também mostram desafios persistentes para garantir que renda, oferta e políticas públicas assegurem alimentação saudável à totalidade da população brasileira.
Com informações de G1




