Kalshi, de Luana Lopes Lara, enfrenta críticas e ações judiciais nos EUA
A Kalshi, plataforma de mercados de previsão cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara, passou a ser alvo de polêmica após aceitar contratos que envolvem eventos militares e resultados eleitorais, segundo processos e queixas públicos nos Estados Unidos. Lara, que detém 12% da empresa e atua como diretora de operações (COO), ganhou atenção internacional ao ser apontada pela revista Forbes como “a bilionária mais jovem do mundo que construiu sua própria fortuna”, com patrimônio estimado em US$ 1,3 bilhão.
O histórico de Lara, ressaltado pela reportagem internacional, inclui passagens pelo Balé Bolshoi, medalhas em olimpíadas brasileiras de astronomia e matemática e formação no Massachusetts Institute of Technology (MIT). A Kalshi, por sua vez, faz parte do crescente setor dos chamados prediction markets, que movimentou mais de US$ 44 bilhões em transações no último ano nos Estados Unidos.
Essas plataformas permitem que usuários negociem “contratos de evento” com resultados binários (sim ou não), operando de maneira similar a uma bolsa — ao contrário das casas de apostas tradicionais, que definem probabilidades. Por esse modelo, empresas como a Kalshi vinham sob a supervisão da Commodity Futures Trading Commission (CFTC), órgão federal americano. Críticos, no entanto, afirmam que essas atividades equivalem a jogos de azar e pedem que Estados e reguladores locais imponham regras e impostos semelhantes aos das “bets”.
No Brasil, reportagens indicam que brasileiros acessam essas plataformas por meio de remessas em criptomoedas ou cartões internacionais. Empresas de apostas que pagaram outorgas de R$ 30 milhões para operar no país têm solicitado ao governo, em reuniões com a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, o bloqueio de serviços como o da Kalshi por não terem sede nacional nem ter pago outorga. Em entrevista ao Valor Econômico, a fundadora da Kalshi disse que a empresa estuda abrir um escritório no Brasil.
A repercussão aumentou após a circulação de mercados que especulavam sobre ações militares envolvendo Irã, Venezuela e Israel. Nos EUA, regras financeiras proíbem negociação de contratos ligados a guerra, terrorismo ou assassinato, o que motivou reclamações de que determinados contratos poderiam violar a legislação. O grupo Public Citizen apresentou queixas, e há processos coletivos em curso: em um deles, a Kalshi é acusada de não pagar US$ 54 milhões a apostadores em contratos relacionados ao aiatolá Ali Khamenei, caso em que a própria plataforma teria cancelado alguns contratos.
Segundo comunicado citado por agências, a Kalshi afirma ter políticas que vetam apostas sobre mortes e disse ter reembolsado taxas e perdas líquidas “na ordem de milhões de dólares” para preservar usuários. A empresa também nega que opere como casa de apostas, afirmando que suas atividades constituem negociação de contratos de evento regulada a nível federal.
Além das questões sobre conflitos armados, outras controvérsias envolveram apostas sobre líderes políticos: em janeiro, um apostador na Polymarket ganhou quase US$ 500 mil após evento ligado ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, o que suscitou indagações sobre possível uso de informação privilegiada. Nos EUA, o congressista Ritchie Torres propôs projeto para proibir que funcionários públicos negociem nesses mercados com informações não públicas.
A Kalshi enfrenta ainda ações em vários Estados americanos. Nesta semana, a procuradora-geral do Arizona, Kristin Mayes, acusou formalmente a empresa de aceitar apostas ilegais sobre eleições e eventos esportivos no Estado, citando apostas em pleitos estaduais e nacionais — entre elas, mercados sobre a eleição presidencial de 2028 e a eleição para governador do Arizona em 2026 — além de apostas esportivas com valores a partir de US$ 1. A Kalshi afirma que as acusações são infundadas e planeja contestá-las judicialmente.
As disputas ilustram o conflito entre a supervisão federal e a regulamentação estadual sobre esse tipo de plataforma, enquanto legisladores e órgãos reguladores avaliam mudanças na legislação para lidar com riscos associados a especulações sobre eventos sensíveis.
Com informações de G1




